Você se acostuma com as coisas, e isso é confortante. A ausência de dinheiro no fim do mês, o esporro constante de chefes e clientes, os dez ônibus lotados e o trem que você perdeu, a sodomia constante e unilateral do governo, o pouco sono e as menores perspectivas, pilhas de maçãs podres e a falta de sentido de algo que às vezes parece mais uma sentença do que uma vida. Você se acostuma. Releva, troca socos com a própria consciência e com o bom-senso, convence a todos, incluindo a si mesmo, e deixa que a sua existência navegue ao sabor das marolas anestésicas do tempo.
Na verdade é um alívio saber que você se acostuma. É, você fica mais forte. Cada porrada que você leva vira uma casca a mais pra te proteger da próxima. Déjà vu, você já passou por isso antes e não vai cair assim tão fácil. No final, tudo vira sarcasmo, tédio e desdém; simplesmente não machuca mais. E que venha a próxima.
Então você caminha pelas calçadas, postura ereta e olhos sempre mirando à frente, o clipe de um mantra que agrada mais aos ouvidos do que à alma. É assim que deve ser, e é assim que você é. Ou pelo menos é o que você acha que é. Você cresceu, meu caro, e é assim mesmo que os olhos devem fazer. C'est la vie.
Sempre em frente. Nunca olhe para os lados, nunca olhe para trás. É essa a fórmula.
Só que a paulada vem sempre de onde você não está olhando. Veja, alguém que nunca esteve lá não faz falta. Alguém que não existe não pode deixar saudade, não pode magoar. Mas alguém que não existe MAIS, puta que pariu. Isso machuca, e lá no fundo. Ainda que você tente negar, ainda que vocês nem fossem tão próximos quanto você gostaria, mesmo que a geografia ou as circunstâncias tenham afastado vocês. Especialmente se o sangue é o mesmo, a rasteira sempre derruba. Mesmo quando você nem sabe direito o que escrever, o que dizer, o que sentir.
E lá vão suas ilusões todas, tudo ladeira abaixo. E aí você olha para trás e vê (mais uma vez) tudo que escolheu não ver esse tempo todo, que não quis ver, varrido para debaixo do tapete. Todos os desperdícios, as teimosias, tudo que você deixou de viver - aliás, bela fórmula, a sua - decantado naquele velho ritual, da igreja à última pá cheia de terra, do hospital à lápide que resume toda uma existência em meia dúzia de sílabas, um nome, descanse em paz.
Com algumas coisas você nunca se acostuma. Pode parecer familiar, mas é diferente toda vez. E acredite, dói em cada uma delas.
Sim, é a vida, e cedo ou tarde todo mundo passa por isso. Todo mundo morre, eu sei. Vô, olha, sei que andei bem ausente, que eu devia ter passado mais tempo com você, ouvido mais das suas histórias e contado algumas das minhas. Que a gente devia ter sacaneado mais enfermeiras e rido dos médicos que tentavam levar tudo a sério. Mas tenho certeza que você me desculpou essas não poucas faltas, e que foi em paz. Sei que você já andava cansado, e que provavelmente foi melhor assim. Acontece que nem sempre é conforto, saber tudo isso, e de qualquer modo aqui fica sempre um buraco. Vai deixar saudade, mas vamos levando; sempre levamos. Obrigado por tudo, sei que você curtiu seu tempo aqui nesse planetinha, vô. Vai em paz.
Eu não olho mais só pra frente, que nem jumento de carroça; chega de tropeçar à toa. Crescer deve ser mais que fingir que não dói. É hora de descobrir.
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