O que eu queria era escrever alguma coisa sobre a Lua, que apagou ontem e que hoje anda embaçada no meio desse cerrado. Queria tecer elegias, arquitetar sonetos ou embaralhar haicais para tergiversar sobre algum assunto apropriado ao fim desse ano maluco, e - finalmente! - a um novo e incipiente começo de início. Acontece que cheguei à conclusão de que a Lua se tornou uma péssima metáfora. Já gastaram, anos a fio, nosso uma vez eloquente satélite com cretinices demais. O corpo celeste anda démodé, bien sûr.
De qualquer jeito, meu plano foi por água abaixo. Não era e nem nunca foi sobre a Lua, obviamente. Era desde o início sobre a Julia. Quero contar a Julia, a Julia assim mesmo, sem acento e sem documento, sem mica e sem incenso, mas com um sorriso de dar inveja ao próprio Sol. Com unhazinhas bem-nascidas e soluços esporádicos, narizinho arrebitado e biquinho permanente de arremesso de beijoca.
Julia.
Como é que funciona, isso? Quem me conhece há algum tempo sabe da fobia que me consumia de me aproximar de uma criatura tão pequenininha, de meus discursos peterpanianos contra o matrimônio e a reprodução humana, e obviamente do litro e meio de saliva própria que hoje recebo na cara, por tê-la cuspido diretamente para o alto. Agora, veja bem, aconteceu a Julia. E eu segurei a Julia, e ela dormia. Então ela acordou, e arrotou e peidou em mim. E eu achei o máximo.
Amor instantâneo, ¿cómo no?, por essa criaturinha minúscula que acabou de chegar...
Acho que é mais ou menos isso, o amor. Alguém que arrota e peida em você, mas que você quer infinitamente bem apesar disso. No caso, talvez até por causa disso. E então vem aquele sorriso lindo e contagioso, a melhor coisa que aconteceu desde o fim do plano cruzado, e pimba!, você acaba de pegar o bicho da fraldinha. E daí, azar o da Lua que, brilhe como quiera, apagada estará sempre perto da Julia.
Siga assim, Julia, Julinha, meu amoreco, minha sobrinha de rima fácil de tio preguiçoso e babão. Bem-vinda!
Já te amo do fundo do meu croissant,
Tio Thiago
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