Foi mais ou menos assim: uma sucessão de contingências absurdas e me safei, escapei por um triz. Escapamos todos. Um golpe de mestre ou de sorte, regado a cerveja e a pouquíssimo sono. Tinha tudo pra dar errado, mas não deu. Tão pouco tempo, na verdade, e ainda assim. E agora, depois de todo esse tão pouco tempo, que na verdade foi uma eternidade...
Então, que porra foi essa? Um trem? O que diabos passou por cima? Às vezes dava pra me sentir bem, heróico, onipotente e imune a tudo, poderia até confeccionar linguiças de carne de bebê na frente de todo mundo e me safar. Delírio. Noutras era terrivelmente imprestável, como Pinocchio numa mesa de pôquer, tentando chegar à Lua num foguete a vapor. Agora ficou só um buraco vazio, os corredores vazios e um monte de tempo. Nostalgia é foda. Sentir saudade do buraco antes até de sair dele, ce mortel ennui.
Mais um faux pas e eu teria pedido arrego. Agi com toda a desenvoltura de um lagarto com ensino superior, o que dificilmente merece algum aplauso. Porra, claro que aprendi pra caralho. Quem não aprenderia? Ganhei um rumo que não tinha antes, pelo menos no que diz respeito a trabalho. Chega a beirar a certeza, essa sensação, e por isso mesmo desconfio da maldita ainda mais. Porém, por falta de um outro motivo qualquer, fico contente com o que eu tenho. Fiquei contente com o que fiz, e me agrada pensar que não fui o único. No fim, não foi só pelo dinheiro. Tá, um pouco foi. Mas, mesmo que tivesse sido dinheiro suficiente para comprar escravos, não teria sido só isso.
Aquela gente, a gente toda que povoava o nosso castelo, o nosso bunker metálico-trapezoidal, esses vão fazer a maior das faltas. Cada um deles. Quase todos. Mas muita falta. Ouviram? É, vocês todos, que me chamaram de viado e que me perseguiram para cobrar dinheiro e que reclamaram de tanta coisa e que me levantaram quando eu caí feito um gambá no meio da rua e me botaram num táxi e fizeram questão de me lembrar de tudo depois e que me viram zumbizando pelos corredores e me escondendo e que me ouviram com atenção e que falaram que ia dar tudo certo. Arram. Vocês.
Sempre soube que era um castelo de cartas, de qualquer maneira; um reality show, um furacão dentro de uma garrafa, entre parênteses. Só que fica um pedaço seu entre os parênteses, ou mais de um. E nunca adianta saber com antecedência, de qualquer modo. É que nem ressaca. Você sabe que vai ter, mas ainda assim bebe até trocar socos com a própria sombra e chorar abraçado com a lixeira. Agora, imagina o tamanho dessa ressaca. Excuse me, please, one more drink. Could you make it strong, 'cos I don't need to think?
Nesses últimos dias eu tenho acordado sempre com aquela cara, sabe? Cara de IPTU vencido... saca? Imagina o tamanho da ressaca...
;)
3 comments:
hey man! it's a great writer! nice text.
difícil não compartilhar os sentimentos e as palavras. dificil não se ver ali, e não ver lá todos os que víamos todos os dias. e agora? resta a saudade.
sempre gostei desse nome, mas nunca muito do lugar em si. mas, nem é sobre o lugar o texto né. quer dizer não deixa ser, talvez mais o espaço, o território. enfim, chapot presvot é melhor que santa cristina.
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