Difícil dizer alguma coisa sobre saudade que o Chico já não tenha dito. Nada me parece mais doído que o revés do parto, ou que arrumar o quarto do filho que já morreu. Mas acho um pouco de injustiça, todo esse oceano de poesia. Ainda falta alguma coisa, falta alguma coisa que acalme, uma para os dias bons e para as lembranças que não transformam os vivos em fantasmas. Saudadeína, uso tópico. Espalhe uniformemente sobre a área afetada. Caso persistam os sintomas, consulte imediatamente um médico.
Então tem o Chico, sempre. Também tem o Vinícius, que se cansou dela e disse chega. Talvez até mesmo a cabala tenha alguma frase enigmática e infalivelmente sábia sobre ela. Saudade, falta, ausência, vazio; dificilmente sinônimos, mas fundamentalmente irmãos. Mancanza, nostalgia, echar de menos, to miss, manquer. Toda língua tem sua palavra, toda gente tem sua saudade, dando cores brilhantes a memórias desbotantes.
Mas não falo só dessa; não é a mortalha do amor, o pior castigo Buarqueano, a única saudade possível. Tem também aquela impossível. A saudade sem esperança alguma, mais próxima à margem oposta, muito além de qualquer desempate com destino ou livre arbítrio que seja. A impossível saudade de quem não mais está, de quem não é mais, um belo soco no estômago aplicado por Deus. A saudade do meu sofá, de tantos anos atrás, e da companhia silenciosa no inverno de um lugar e um tempo que, pra todos os outros mamíferos desse planeta, não existem mais.
O pior, eu acho, não é a falta do que foi. Isso você destila numa garrafinha de bons momentos e beberica, sempre que aperta, ao longo da sua vida. O pior é a saudade do que nem chegou a ser. É o silêncio, em vez daquele conselho que você precisa desesperadamente ouvir, a menina que ela não vai ter a chance de conhecer, os netos que ela não vai ver crescendo. É o cartão de aniversário que não vai vir nunca, a mudez teimosa do telefone, o orgulho discreto de um rebento arisco e tudo aquilo que você nunca disse a ninguém, o seu relicário... Contra essa, meu amigo, o tempo é só concreto num projeto emocional de represamento. Melhor é dar ouvidos às preces do Chico.
Saudade é só uma outra medida. Quanto pesa um dia? Funciona assim, pra mim. A saudade dá peso aos dias, pequenas medidas empilhadas sobre as suas costas, que vão envergando, envergando, até que crec!, e lá vem ela de novo, doendo e intocável como mil cãimbras em um membro amputado, impossível de alcançar e imune aos efeitos de qualquer analgésico... e então passa, só pra começar tudo de novo. Saudade é a tênue linha entre amor e insanidade, se é que existe alguma linha entre amor e insanidade. É uma dízima periódica, a saudade é matemática, imprecisa e inexata, do lado de lá da vírgula, seguindo incessantemente a fórmula daquilo que é essencialmente indivisível; lembro, logo sinto. A saudade é o pi, é uma longa espera, é a infinita espera da espera da espera, e daí tem sempre aquela noite em que a sua cabeça não é nada além do recheio de um sanduíche de cabelos entre travesseiros e lençois.
É hora de canibalizar minhas próprias palavras. Diga trinta e três. O senhor anda doente, mas pode haver chance de cura. Diga aaahhhhhh. Apesar dos dentes, a boca faz mais do que mastigar, se é que o senhor me entende, para o bem ou para o mal. Por favor, levante o braço. A temperatura está normal, mas isso não quer dizer nada. O calor é de lascar e de qualquer modo a temperatura nunca diz nada, mesmo. O senhor pode ir, mas é melhor voltar daqui a uma semana. Diga, doutor, é grave? É febre? Não senhor, é pior. É saudade.
3 comments:
As palavras estão tão doídas que só podem falar de saudade...
Chico, Vinícius, Silverchair ou Bruno & Marrone só conseguem falar das saudades deles.
dói... :_(
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