segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

oceano on the rocks

Fim de tarde na praia, em dia de semana, é um bom caminho. Você talvez ouça música enquanto anda. De bermuda e chinelo, ainda assim o calor é de amargar, e então você sua copiosamente. Debaixo daquele sol, pelas ondas que Burle-Marx desenhou na calçada da Atlântica, as pedras portuguesas nem parecem tão portuguesas assim. E todas as pessoas ziguezagueando, desviando-se umas das outras, acompanhando as marolas de basalto e calcário, um oceano on the rocks.

Com cara de ressaca, você desvia das pessoas enquanto olha para o mar, mas é um exercício inútil: algumas colisões são inevitáveis. Uma mulher passa por você portando com ela cinco cães enormes e ruivos, impecavelmente penteados, como fidalgos. Tão lustrosos que parecem ter sido esculpidos em madeira de lei, mogno ou cerejeira ou - atreve-se você a supor - até pau-brasil, e envernizados em seguida. Pobres diabos, suam como podem, e suas compridas e rosadas línguas deixam uma trilha de baba pelo calçamento.

De repente uma senhorita estonteante surge adiante, seu corpo debaixo de um biquíni azul - ou será verde? vermelho? - e leva a reboque seus olhos. O mundo adquire um aspecto leitoso e a perspectiva do tempo é alterada, uma câmera cada vez mais lenta. Se você ouvia música, a trilha sonora só aumenta o drama do momento, e ela desaparece devagar, leve e sinuosa, flanando sobre a calçada, seus olhos de mulher acostumados a ignorar solenemente a existência de tudo que pertença ao plano terreno, aquela torturante expressão de quem conhece um segredo que você nunca vai descobrir. A você resta continuar em frente, olhando do fundo da sua ressaca, apalermado, navegando pelas ondas Burle-Marxistas com toda a graça de um encouraçado alemão.

Bang, uma outra colisão, e o mundo retoma o passo normal. Bicicletas passam zunindo, bem como skates e patins e todo tipo de veículo concebido para se mover à base de energia humana, e outros nem tanto. Um guardinha passa montado num segway, aquele horrível patinete motorizado que segue zumbindo com rodas enormes e emborrachadas, como uma cadeira de rodas do futuro. É um invento absurdo e terrível, o segway, prova de que a humanidade definitivamente entrou em decadência. É o triunfo da preguiça sobre o bom-senso.

Outras pessoas passam, abordam você tentando vender bugigangas e parecem decepcionadas quando percebem que não, você não é gringo, mas sorriem quando você responde com educação um "valeu bróder, não vou querer, não". Uma banda na calçada, uma marchinha improvisada é o deleite de um grupo de japoneses, que disparam freneticamente suas câmeras, como se suas vidas dependessem disso. Um mulato barrigudo agradece num inglês macarrônico, passando o pandeiro para receber alguns trocados.

Outros japoneses filmam seus pequenos filhos japoneses enquanto estes tomam sorvete. O menor chora porque o seu sorvete está derretendo. Em terras tropicais é assim, pequeno oriental. O sol daqui não é nascente, é do eterno meio-dia em ponto mesmo, e não perdoa sorvete nenhum. Mais cliques, dessa vez uma família escandinava registra um artista de rua. De quebra, sem querer você aparece na foto.

São tantos cliques... em quantas fotos será que você já apareceu hoje? Só nesse caminho? Papagaio de pirata, coadjuvante, figurante, rosto embaçado, passando por trás ou pela frente - foi mal, não vi -, de quantas vidas você fez e vai fazer parte para sempre, nesses pequenos instantes fotográficos? Quantas dessas pessoas você vai voltar a ver algum dia, algo como um distante déjà vu de férias paleolíticas? Pequenos fragmentos de vida que se misturam em um momento kodak que passa completamente despercebido.

Não que faça alguma diferença; não que alguém vá se lembrar, ou se importar. Mas às vezes você pensa nisso.

É só um caminho, e o oceano ainda está ali.

2 comments:

Fabiano Battaglin disse...

Já vi os supracitados cães ruivos. Acho que são gêmeos.

Athena disse...

"Em terras tropicais é assim, pequeno oriental." heheh...olha, fiquei de cara com os seus textos, li dois, mas esse está mais perto do entendimento da "pequena Athena". rsrsr..