Janela afora, as pessoas passam. O sol continua a castigar todas elas com sua luz teimosa e quente. Feito um diabo parcimonioso, o vendedor de flores continua a assoviar doce e melodicamente na mesma rua de tantos anos, de vez em quando abordando os pedestres com algum comentário absolutamente aleatório. “A Lapa é pra lá, você devia levar alguma senhorita para passear. Não tem nada como a lapa”.
Em alguma crônica Xico-Sá-riana, uma moça chorava no metrô, entre a Consolação e Paraíso. Em plena Paulista. É tragicômica a lágrima que escorre entre Consolação e Paraíso. Ao mesmo tempo, há lugar mais apropriado? Qualquer que seja o sentido, da lágrima ou do trem, é um choro perdoado. Como concluiu o autor, ela provavelmente sabia que o amor é como as estações da avenida Paulista, começa no Paraíso e termina na Consolação.
Uma criança minúscula sai correndo da padaria e esbarra em um velhote de bengala, quase o derruba. Sua mãe, envergonhada, ralha com ela. “Isabela, pede desculpas A-GO-RA!” O idoso afaga a menina, diz que não foi nada, mas a mãe continua encolerizada. A menina se esquiva da mão calejada e antiga do senhor e aproxima-se da mãe, sentindo culpa sem nem mesmo entender por quê. É um aprendizado precoce, esse dela. E valioso.
Tem aquele tipo de dia preguiçoso, mesmo durante a semana, quando os porteiros tramam uma partida de buraco para o fim do expediente e os executivos fazem serão para justificar a presença na confraria dos amantes. Universitários e pós-universitários dividem a experiência quase religiosa do happy hour. Desempregados uivam para qualquer fase da lua, agitados, espalhando calor. O mundo engole tudo, sem mastigar.
Hoje é só mais um desses dias, mas agora já não importa mais. Porque daqui a pouco vai ser só um outro, e são coisas pequenas assim que causam azia, gastrite e úlcera no dia seguinte.
3 comments:
"o amor é como as estações da avenida paulista"... realmente inspirador.
Também achei, infelizmente não tenho méritos nisso. O Xico Sá é realmente bom nisso.
É muito bom o exercício da observação, vicia, tenho vontade de trazer comigo mais olhos pra ver o que vejo.
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