Foi um ano longo. Mais longo que de costume, um ano imenso que de certa forma não acabou.
Puta que pariu. E algum ano acaba?
A gente tenta botar números, nomes e ordem nas coisas, nas caixas e nos meses, como se fosse lógico, como se adiantasse. O calor é de amargar, gruda na gente como chiclete. O ar é pesado e espesso como leite morno, dezembro e janeiro. Rio de Janeiro. Num lugar desses, uma sombra é uma conquista social. O mar não é alívio, o ar não é alívio. Quando venta, parece mais secador de cabelo apontado para a cara. Isso quando venta.
Mas não venta. E de qualquer maneira não se vai a lugar algum. São só milhares de endereços que não dizem nada, e alguns que talvez um dia digam. Hoje, não dizem. Amanhã, talvez.
O que você quer ser quando crescer? Cheiro de cozinha, escada de prédio, entrada de serviço. O sofá grudava na pele, mas era confortável quando fazia frio, o sofá da infância. Os insetos eram pré-históricos e não mostravam clemência, trabalhando sempre em mutirão. Isso há tantos anos. Um longo ano.
Quando os fogos e os champanhes estouram, todos se abraçam e desejam um bom ano uns aos outros. Alguns sorrisos genuínos, outros amarelo-ovo. Eu assisto a tudo sem muito entusiasmo. Mais do mesmo, mais um pensamento para o meu caderninho de vai-se-foder.
Tanta gente que sempre soube tudo, como um oráculo. Pra toda essa gente, um feliz ano novo. Pra mim, um ano novo silencioso, por favor. Um ano é só uma medida, a medida da resistência, de quanto tempo você aguenta correr para chegar exatamente ao mesmo lugar. Mas aprende-se. Ah, sim. E como.
Um longo ano.
De novo os pés têm que reaprender seus passos. Às vezes os pés da gente esquecem mais rápido que a cabeça. Um passo, outro passo. Esquerda, direita. Mas também aprendem mais rápido. Engatinhando janeiro adentro, pra ficar em pé em meados de março, talvez abril, quando o calor já não vai mais curvar a gente como bambu. Outro ano, outro motivo para não precisar de motivo nenhum.
Um ano qualquer. Diabos, e existe algum outro tipo?
3 comments:
mto bom o post. Saiba que o meu desejo de ano novo não foi amarelo ovo. E um dos pontos altos de 2009 foi encontrar vc depois de tantos anos.
otimo post, apesar das referências ranatorussianas.. uma das minhas metas em 2010 é ver você, a gabi e o diego, ao mesmo tempo!
Tenho de fato uma visão cíclica à cerca da vida. O melhor do que enxergo na natureza se movimenta em fluxo e refluxo. "Swinging on the spiral", diriam alguns...
No final das contas, as coisas não são nem exitem em si. Tudo é fruto do prisma no qual olhamos pra ela.
E os prisma são e sempre serão diferentes.
Ainda bem.
Voltarei com freqüência aqui, garoto.
Abraço,
JP
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