De repente se fosse menos escroto não teria graça. Se é que tem graça. Quem sabe, se fosse mais lógico ou se fizesse mais sentido, se uma peça se encaixasse na outra e se no final um lindo panorama surgisse, uma paisagem bucólica de colinas verdes ou uma montanha, Parsifal e seu jardim mágico...
***
Eu apenas fechei o caderno e deitei de lado, exausto. Pierre voltava, atravessando a rua com mais um embrulho de papel nas mãos, e eu sabia que era mais vinho. Não dos bons, mas umas três garrafas do vinho mais barato que havia na lojinha, e eu simplesmente não aguentava mais. Era a terceira vez naquela noite que ele descia as escadas, atravessava a rua e gastava o dinheiro que EU tinha ganhado com aquela desculpa. "Bebamos, bebamos", dizia, "On boit? Une boteille, vas-y!", repetia até me cansar os ouvidos e eu atirar alguns trocados no chão.
Eu não reagia. Era, afinal, inútil discutir com ele. Normalmente seguro bem o vinho, até mesmo os da pior espécie, mas não era uma situação normal. Os carros passavam lá embaixo, e eu não me sentia nada bem. Ouvi alguns gritos pela janela, alguém urinava da varanda do andar de cima e os transeuntes não pareciam nada felizes com isso. Dessa vez não era Pierre - eu ainda podia ver sua jaqueta imunda e surrada cruzando a rua, segurando aquele pacote amassado. Ou será que era ao contrário? Em alguns casos você nunca pode ter certeza sobre quem segura quem.
A gritaria tinha aumentado e eu pensei ter ouvido uma sirene, mas no final não era nada. Você tem que reconhecer o valor dos franceses. Você pode urinar sobre a cabeça de um e, no final, tudo que eles fazem é gritar algum desacato de volta. Um espanhol te esfaquearia. Um russo provavelmente esquartejaria a sua família inteira. Mas um francês apenas despeja cinco minutos de retórica em seus ouvidos e escreve um manifesto.
Pierre entra pela porta como se fosse a primeira vez, ou como se nunca tivesse saído antes. Ele sempre faz isso, um estrondo, leve e pesado, como uma pedra com asas. Isso bem na hora em que eu me levantava para ir ao banheiro vomitar. De novo. Não sei por que eu dava dinheiro para ele comprar aquela merda, se eu acabava botando tudo esgoto adentro. Ele era como uma segunda personalidade, só que dessa vez a primeira não queria ceder e eu ainda me sentia mal.
Balbuciei alguma coisa antes de expulsar a última garrafa de merlot barato das minhas entranhas, mas o barulho da rolha sendo arrancada da garrafa apagou instantaneamente qualquer significado que eu quisesse transmitir. Pierre tinha vencido de novo. Imediatamente esqueci que me sentia mal, lavei minha cara sem olhar para o espelho e enchi outro copo.
"Por que é que toda vez que eu te dou dinheiro você traz essa merda? Essas garrafas não valem metade do que eu te dei", disse-lhe, enquanto tomava um gole. "Pas de souci, mon cher", respondeu, acendendo um cigarro fedorento, "não tinha de la monnaie, então fica crédito". Pois sim. Eu podia ouvir o barulho de moedas no bolso dele. "Seu gaulês filho de uma puta, você vai pagar as próximas", respondi. "Oui, oui, clarrô, pas de souci", riu. Ee sabia que eu provavelmente esqueceria, e estava certo. Não são as mentiras que irritam você, mas as verdades que você menos gosta de ouvir.
(continua)
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
feliz aniversário
Dia 25 foi o aniversário de seis anos deste blog, data tão relevante que até eu deixei passar.
Mas, olhando agora, achei apropriado deixar esse registro. Seis anos... uau, nem eu mesmo achei que fosse durar tanto. Impressionante como não tenho realmente mais nada a dizer sobre o assunto.
Dito isso, a vida continua.
Sem mais,
Thiago
Mas, olhando agora, achei apropriado deixar esse registro. Seis anos... uau, nem eu mesmo achei que fosse durar tanto. Impressionante como não tenho realmente mais nada a dizer sobre o assunto.
Dito isso, a vida continua.
Sem mais,
Thiago
terça-feira, 6 de outubro de 2009
a lei fatal de ser como é
Para onde quer que você olhe, há sempre alguém procurando sentido em alguma coisa completamente desprovida dele, tentando desesperadamente ver ordem no que é aleatório. É como tentar encontrar padrões em nuvens ou ver o rosto de nossa-senhora-de-alguma-coisa em uma mancha de óleo na calçada, apenas tão real quanto um quilo de fé. Ou de imaginação. O mais curioso é que encontram, sempre encontram uma razão, uma justificativa. É fácil, depois, um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto ituitivo e voilà...
Quando não há justificativa aparente, há pelo menos um culpado. Se o Brasil perdeu a copa foi porque o Ronaldo estava gordo e passou mal, se o relacionamento acabou foi porque ele/a não era a pessoa certa e não te merecia, se o trabalho não vingou foi porque não era para ser, e ainda vai aparecer alguma coisa melhor. Nessas horas, o destino, Deus, o papa e até o senso comum ganham crédito e credibilidade, e explicam aquilo que simplesmente não tem explicação. É fácil ligar os pontos quando você está sempre olhando para trás.
E então o buraco está tapado, o vácuo devidamente preenchido. É como uma falsa memória que ganhou vida própria, tão bonita e perfeita quanto uma pérola de plástico. É o seu sentido, e isso basta. Porque, como já afirmava a psicóloga Lauren Slater, "nossas mentes abominam espaços em branco, estão existencialmente despreparadas para o vazio". Então, como um bom e previsível ser humano, você o preenche.
Sim, é difícil admitir que você deu um chute na trave mesmo quando tinha certeza que ia ser gol, que as coisas nunca dependem unicamente dos seus esforços. É foda admitir que muito pouco do que acontece nesse seu breve lampejo de existência tem algum propósito. Não foi isso que você aprendeu desde o início, não é? Não é essa a lição que aprendeu na escola, nos filmes e livros, não foi isso que a sua mãe lhe disse enquanto você crescia, não mesmo. E isso incomoda, porque você é um ser humano e não um bicho, e precisa ir além, não precisa?
Mas agora você já cresceu, e pode ser que tenha percebido que as coisas não são assim tão simples e que as profecias são ainda mais vazias depois que não acontecem. As coisas são como são, e isso basta. Quem sabe você tenha se cansado disso tudo, dessa brincadeira sem graça de acreditar em fadas. Quem sabe você tenha se cansado desse exercício inútil de martelar o próprio dedo procurando culpados. Talvez você tenha percebido que não são as grandes verdades, e sim as pequenas idiossincrasias, que fazem valer a pena. Sim, quem sabe você tenha decidido que é hora, é definitivamente hora de separar entre o que é justo e o que é justificativa, e que nem todo o sentido do mundo vai preencher o vazio de uma vida não vivida.
Quando não há justificativa aparente, há pelo menos um culpado. Se o Brasil perdeu a copa foi porque o Ronaldo estava gordo e passou mal, se o relacionamento acabou foi porque ele/a não era a pessoa certa e não te merecia, se o trabalho não vingou foi porque não era para ser, e ainda vai aparecer alguma coisa melhor. Nessas horas, o destino, Deus, o papa e até o senso comum ganham crédito e credibilidade, e explicam aquilo que simplesmente não tem explicação. É fácil ligar os pontos quando você está sempre olhando para trás.
E então o buraco está tapado, o vácuo devidamente preenchido. É como uma falsa memória que ganhou vida própria, tão bonita e perfeita quanto uma pérola de plástico. É o seu sentido, e isso basta. Porque, como já afirmava a psicóloga Lauren Slater, "nossas mentes abominam espaços em branco, estão existencialmente despreparadas para o vazio". Então, como um bom e previsível ser humano, você o preenche.
Sim, é difícil admitir que você deu um chute na trave mesmo quando tinha certeza que ia ser gol, que as coisas nunca dependem unicamente dos seus esforços. É foda admitir que muito pouco do que acontece nesse seu breve lampejo de existência tem algum propósito. Não foi isso que você aprendeu desde o início, não é? Não é essa a lição que aprendeu na escola, nos filmes e livros, não foi isso que a sua mãe lhe disse enquanto você crescia, não mesmo. E isso incomoda, porque você é um ser humano e não um bicho, e precisa ir além, não precisa?
Mas agora você já cresceu, e pode ser que tenha percebido que as coisas não são assim tão simples e que as profecias são ainda mais vazias depois que não acontecem. As coisas são como são, e isso basta. Quem sabe você tenha se cansado disso tudo, dessa brincadeira sem graça de acreditar em fadas. Quem sabe você tenha se cansado desse exercício inútil de martelar o próprio dedo procurando culpados. Talvez você tenha percebido que não são as grandes verdades, e sim as pequenas idiossincrasias, que fazem valer a pena. Sim, quem sabe você tenha decidido que é hora, é definitivamente hora de separar entre o que é justo e o que é justificativa, e que nem todo o sentido do mundo vai preencher o vazio de uma vida não vivida.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
com o devido atraso
Claro que tinha a polícia, vários policiais, mas eles estavam todos ocupados demais procurando bêbados para prender e carros para apreender. Não que isso não importasse, não é isso. Mas naquela hora, eu realmente não podia me lixar mais para um bêbado ao volante. Havia pouquíssimos carros na rua, era domingo, era madrugada. Três e pouco, e ainda assim havia blitz, blitzes (é esse, o plural?), e nenhum bêbado à vista.
Era copacabana, era na porta do meu prédio, era uma vez. Há duas semanas. Eu voltava do trabalho, três e pouco da madrugada, e não havia ninguém na rua, como de costume. Ninguém, exceto por mim e pelos dois marginais que vieram em minha direção. Pedaços imprestáveis de carne, fedendo e ameaçando, depois do dia que tive eu quase achei graça quando vieram e me prensaram contra a porta do meu próprio prédio. O porteiro, que dormia enquanto eu batia na porta, ainda acordou a tempo de assistir a tudo da fila do gargarejo.
Passa a grana, a gente é lá do morro (que morro?), eu vou te matar, passa tudo, tudo o quê?, não soube responder. Passa o celular, peraí, deixa eu tirar o chip, pelo menos, me dá meu chipeeeee, piada velha da semana passada passando na cabeça. Mais do mesmo, o mesmo de sempre, passa logo tudo, tó, aqui o dinheiro, não tem mais nada. Arrancou meu relógio, meu deus, quem diabos ainda rouba relógio? Tão démodé isso. Dá o celular, peraí, o chip, lembra? Deixa eu ver o celular... pode ficar com essa merda!, aí eu definitivamente achei graça, quase ri, mas nunca vou saber se a arma era ou não de verdade.
Era copacabana, era na porta do meu prédio, era uma vez. Há duas semanas. Eu voltava do trabalho, três e pouco da madrugada, e não havia ninguém na rua, como de costume. Ninguém, exceto por mim e pelos dois marginais que vieram em minha direção. Pedaços imprestáveis de carne, fedendo e ameaçando, depois do dia que tive eu quase achei graça quando vieram e me prensaram contra a porta do meu próprio prédio. O porteiro, que dormia enquanto eu batia na porta, ainda acordou a tempo de assistir a tudo da fila do gargarejo.
Passa a grana, a gente é lá do morro (que morro?), eu vou te matar, passa tudo, tudo o quê?, não soube responder. Passa o celular, peraí, deixa eu tirar o chip, pelo menos, me dá meu chipeeeee, piada velha da semana passada passando na cabeça. Mais do mesmo, o mesmo de sempre, passa logo tudo, tó, aqui o dinheiro, não tem mais nada. Arrancou meu relógio, meu deus, quem diabos ainda rouba relógio? Tão démodé isso. Dá o celular, peraí, o chip, lembra? Deixa eu ver o celular... pode ficar com essa merda!, aí eu definitivamente achei graça, quase ri, mas nunca vou saber se a arma era ou não de verdade.
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