quarta-feira, 14 de outubro de 2009

uma outra história - parte 1

De repente se fosse menos escroto não teria graça. Se é que tem graça. Quem sabe, se fosse mais lógico ou se fizesse mais sentido, se uma peça se encaixasse na outra e se no final um lindo panorama surgisse, uma paisagem bucólica de colinas verdes ou uma montanha, Parsifal e seu jardim mágico...

***

Eu apenas fechei o caderno e deitei de lado, exausto. Pierre voltava, atravessando a rua com mais um embrulho de papel nas mãos, e eu sabia que era mais vinho. Não dos bons, mas umas três garrafas do vinho mais barato que havia na lojinha, e eu simplesmente não aguentava mais. Era a terceira vez naquela noite que ele descia as escadas, atravessava a rua e gastava o dinheiro que EU tinha ganhado com aquela desculpa. "Bebamos, bebamos", dizia, "On boit? Une boteille, vas-y!", repetia até me cansar os ouvidos e eu atirar alguns trocados no chão.

Eu não reagia. Era, afinal, inútil discutir com ele. Normalmente seguro bem o vinho, até mesmo os da pior espécie, mas não era uma situação normal. Os carros passavam lá embaixo, e eu não me sentia nada bem. Ouvi alguns gritos pela janela, alguém urinava da varanda do andar de cima e os transeuntes não pareciam nada felizes com isso. Dessa vez não era Pierre - eu ainda podia ver sua jaqueta imunda e surrada cruzando a rua, segurando aquele pacote amassado. Ou será que era ao contrário? Em alguns casos você nunca pode ter certeza sobre quem segura quem.

A gritaria tinha aumentado e eu pensei ter ouvido uma sirene, mas no final não era nada. Você tem que reconhecer o valor dos franceses. Você pode urinar sobre a cabeça de um e, no final, tudo que eles fazem é gritar algum desacato de volta. Um espanhol te esfaquearia. Um russo provavelmente esquartejaria a sua família inteira. Mas um francês apenas despeja cinco minutos de retórica em seus ouvidos e escreve um manifesto.

Pierre entra pela porta como se fosse a primeira vez, ou como se nunca tivesse saído antes. Ele sempre faz isso, um estrondo, leve e pesado, como uma pedra com asas. Isso bem na hora em que eu me levantava para ir ao banheiro vomitar. De novo. Não sei por que eu dava dinheiro para ele comprar aquela merda, se eu acabava botando tudo esgoto adentro. Ele era como uma segunda personalidade, só que dessa vez a primeira não queria ceder e eu ainda me sentia mal.

Balbuciei alguma coisa antes de expulsar a última garrafa de merlot barato das minhas entranhas, mas o barulho da rolha sendo arrancada da garrafa apagou instantaneamente qualquer significado que eu quisesse transmitir. Pierre tinha vencido de novo. Imediatamente esqueci que me sentia mal, lavei minha cara sem olhar para o espelho e enchi outro copo.

"Por que é que toda vez que eu te dou dinheiro você traz essa merda? Essas garrafas não valem metade do que eu te dei", disse-lhe, enquanto tomava um gole. "Pas de souci, mon cher", respondeu, acendendo um cigarro fedorento, "não tinha de la monnaie, então fica crédito". Pois sim. Eu podia ouvir o barulho de moedas no bolso dele. "Seu gaulês filho de uma puta, você vai pagar as próximas", respondi. "Oui, oui, clarrô, pas de souci", riu. Ee sabia que eu provavelmente esqueceria, e estava certo. Não são as mentiras que irritam você, mas as verdades que você menos gosta de ouvir.

(continua)

3 comments:

lucaskywalkerprieto disse...

Pierre Damus???

Naná Bia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Debora disse...

hahahahahhaa