terça-feira, 6 de outubro de 2009

a lei fatal de ser como é

Para onde quer que você olhe, há sempre alguém procurando sentido em alguma coisa completamente desprovida dele, tentando desesperadamente ver ordem no que é aleatório. É como tentar encontrar padrões em nuvens ou ver o rosto de nossa-senhora-de-alguma-coisa em uma mancha de óleo na calçada, apenas tão real quanto um quilo de fé. Ou de imaginação. O mais curioso é que encontram, sempre encontram uma razão, uma justificativa. É fácil, depois, um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto ituitivo e voilà...

Quando não há justificativa aparente, há pelo menos um culpado. Se o Brasil perdeu a copa foi porque o Ronaldo estava gordo e passou mal, se o relacionamento acabou foi porque ele/a não era a pessoa certa e não te merecia, se o trabalho não vingou foi porque não era para ser, e ainda vai aparecer alguma coisa melhor. Nessas horas, o destino, Deus, o papa e até o senso comum ganham crédito e credibilidade, e explicam aquilo que simplesmente não tem explicação. É fácil ligar os pontos quando você está sempre olhando para trás.

E então o buraco está tapado, o vácuo devidamente preenchido. É como uma falsa memória que ganhou vida própria, tão bonita e perfeita quanto uma pérola de plástico. É o seu sentido, e isso basta. Porque, como já afirmava a psicóloga Lauren Slater, "nossas mentes abominam espaços em branco, estão existencialmente despreparadas para o vazio". Então, como um bom e previsível ser humano, você o preenche.

Sim, é difícil admitir que você deu um chute na trave mesmo quando tinha certeza que ia ser gol, que as coisas nunca dependem unicamente dos seus esforços. É foda admitir que muito pouco do que acontece nesse seu breve lampejo de existência tem algum propósito. Não foi isso que você aprendeu desde o início, não é? Não é essa a lição que aprendeu na escola, nos filmes e livros, não foi isso que a sua mãe lhe disse enquanto você crescia, não mesmo. E isso incomoda, porque você é um ser humano e não um bicho, e precisa ir além, não precisa?

Mas agora você já cresceu, e pode ser que tenha percebido que as coisas não são assim tão simples e que as profecias são ainda mais vazias depois que não acontecem. As coisas são como são, e isso basta. Quem sabe você tenha se cansado disso tudo, dessa brincadeira sem graça de acreditar em fadas. Quem sabe você tenha se cansado desse exercício inútil de martelar o próprio dedo procurando culpados. Talvez você tenha percebido que não são as grandes verdades, e sim as pequenas idiossincrasias, que fazem valer a pena. Sim, quem sabe você tenha decidido que é hora, é definitivamente hora de separar entre o que é justo e o que é justificativa, e que nem todo o sentido do mundo vai preencher o vazio de uma vida não vivida.

7 comments:

Naná disse...

"Cachorro de Palha", filme sobre índios...Isso tudo tá te deixando tenso! ;)

Não sei se fadas existem, mas os contos estão aí pra dar um colorido na nossa vida.

Acredito na verdade, na realidade, por mais feias que elas sejam, mas acho que sonhar, esperar, acreditar, não é mentir ou se enganar, é crer em dias melhores pra não desistir de viver. Comigo, pelo menos, funciona assim.

Mas odeio aqueles que usam certas crenças e "esperanças" como bengalas ou para preencher esse tal vazio que vc disse.

t. disse...

como eu disse, pequenas idiossincrasias...

Andressa Chinzarian disse...

Interessante...tenho refletido sobre a questão desse "vazio" que a gente sente. Desde Shakespeare até os manuais de auto-ajuda essa questão está por trás de todas as questões, pelo menos ao meu ver. O vazio não é ruim não, e o sentido, ou mesmos as profecias, os esforços exacerbados são mais a interferência de seu ego em vc mesmo. A gente vive é pra quebrar o "mardito" ego, e encontrar o nada, mas sempre sobra pedaços...O vazio é quem te dá as respostas. Enquanto isso a gente vive através da simplicidade, ou de pequenas idiossincrasias como vc mesmo disse...ehehe É o que penso ;)

Jiraya Lara disse...

Tirando a parte a bicha do post, até parece q fui eu quem escreveu

N a c a r o l disse...

Então meu livro tá com você, mesmo?

Fabiano Battaglin disse...

Quando sentir esse vazio, lembre-se que "o que é seu tá guardado".
Mais uma expressão pro rol de tampas de bueiro.

Debora disse...

tupish.