domingo, 23 de agosto de 2009

angelina e o amor - parte 3 (final)

Cheguei em casa naquele dia sem nenhuma lembrança de como tinha saído da classe. Só dei por mim no portão, e foi um conforto indescritível fechar a porta atrás de mim e me trancar no quarto. Eu olhava para as paredes e pensava no amor, e o rosto de Angelina não me olhava mais de soslaio, ela sacudia a cabeça e corria, arisca e avermelhada, corria porta afora.

Amor era isso? Não podia me conformar. Certamente não se parecia com o que eu tinha lido, nem com as descrições do traidor Eduardo, o judas. O que havia de ser feito sobre isso?

Então tive uma ideia, ia tirar o caso a limpo de uma vez por todas. Era esperar o pai voltar do trabalho e insistir na pergunta, ele devia saber. Meu pai havia de saber, adulto e vivido, ia dar alguma resposta sensata.

Sentei atrás do sofá a tarde toda, esperando papai chegar. Era sexta-feira, e sabia que era dia de ele chegar mais tarde, dia de bar com os colegas da repartição, mas eu estava determinado. Angelina, bela Angelina, me fez companhia atrás daquele sofá, o tempo todo sacudindo sua cabeça e fugindo de mim. Angelina e o amor, eu tinha que saber, foi um alívio quando meu pai entrou pela porta e tirou a gravata e eu pude finalmente deixar meu esconderijo. Esperei pacientemente ele terminar o jornal, jantamos todos, ele, mamãe e eu, ele sentou na poltrona verde e ficou olhando para um cinzeiro velho na mesa, a tevê ligada baixinho.

Sentei ao lado dele, em um banquinho acolchoado marrom, e olhei para o rosto dele. Era um homem vivido, ocupado. Trabalhava sempre e muito, devia ser algo importante, porque ele usava terno, gravata e tudo. Não havia dúvida para a qual aquele homem não soubesse a resposta. Então, sentado ao seu lado, expliquei a situação. Os olhos dele passeavam pela sala sem nunca passar por mim, parecendo às vezes rodar, às vezes parar em algum ponto indefinido da sala, como se ele estivesse longe, olhando pra dentro.

Ele ouviu e ouviu a história, falei sobre Angelina, como ela crescia, a linda Angelina, falei sobre o traidor Elias e sobre o judas Eduardo, sobre as histórias do irmão dele, sobre as gargalhadas e sobre o amor. E então eu perguntei pro meu pai, sábio e velho pai, curtido pela idade, perguntei o que é que havia de se fazer nesse caso, no caso do amor ter acontecido e fugido porta afora, um dilema dessa envergadura. Ele olhava a sala curiosamente, como se fosse nova, imagino que estivesse pensando, ruminando uma ideia. E ele respondeu, após uma longa e silenciosa pausa reflexiva: É, meu filho, parar de fumar é o diabo, é verdade. É o diabo.

E foi assim que eu descobri o que era amor.

2 comments:

retransmission disse...

Adorei!
mas o nome Angelina me remete a uma época meio creep da minha vida. Colocar coisitchas novas aqui é bob's chuchu?
kisses

beta disse...

amei.