sábado, 22 de agosto de 2009

angelina e o amor - parte 2

Quando contei isso pra turma, depois do futebol, Elias me explicou que podia ser que fosse amor. Tinha que ser, disse Eduardo, mais velho um ano, repetente. O irmão dele tinha uma namorada e passava horas por dia com ela no telefone, e o Eduardo disse que ele não pensava em outra coisa. Achei estranho, amor. Já tinha ouvido falar, até já tinha lido alguns versos de amor algumas vezes na aula de literatura, mas me parecia uma coisa diferente.

Voltei pra casa um tanto confuso, minha cabeça ocupada entre pensamentos, preso entre amor e Angelina me olhando, eu estava determinado a passar a limpo. Ia falar com meu pai, já adulto e conhecedor das coisas, funcionário público e tudo. Esperei ele chegar do trabalho, ler o jornal e, depois do jantar, tentei introduzir a pergunta, mas não tive ocasião. Muito agitado, ele andava para os lados e falava alto, às vezes sozinho, às vezes com mamãe, que respondia da cozinha. Concluí que não era um bom momento e nos dias seguintes acabei até esquecendo de perguntar.

Não via jeito de resolver aquela questão, até que Elias me veio com uma resposta bastante sensata. Convida ela pro baile, se ela aceitar é porque te ama também, ele disse. Achei razoável, embora não fizesse ideia do que deveria fazer caso ela me amasse. O que vinha depois ninguém soube me responder, mas antes me cabia resolver a primeira questão. Era simples, só tinha que convidar Angelina para o baile.

Naquele dia, no fim da última aula, cocei a cabeça, ali no fundo da classe, pensando no que ia dizer. Já tinha até sido um pão, mas aquilo fazia pouca diferença naquele momento. Não conseguia decidir, e senti um certo receio. Olhava lá do fundo e pensava, pensava, e não me vinha nada; de repente não me pareceu mais tão simples assim. Melhor seria escrever, mas não havia mais tempo. Tomei a decisão.

Levantei da carteira e fui caminhando na direção da primeira fila, mas no caminho algo estranho começou a acontecer. Eu fui sentindo um calor, minhas orelhas queimavam mais que em dia de exame, minhas mãos suavam. E a estranheza toda aumentou, porque sucedia que, quanto mais me aproximava de Angelina, maior ela ficava, ela ia crescendo e crescendo, e eu seguia diminuindo e diminuindo até que quando parei do lado dela ela me parecia três vezes o meu tamanho. Tinha ficado bonita, muito bonita, cheirava a rosas, e os olhos brilhavam.

Quase desisti, mas já tinha ido até ali e achei um desperdício voltar atrás. Quando eu cutuquei seu ombro, pareceu-me que o tempo ficou devagar e que o ar tinha virado um tipo de água morna, resistindo a meus movimentos e deixando tudo em câmera lenta. Ela virou, sorrindo, e o tempo de novo pregou-me uma peça, o maldito parou e eu não conseguia abrir a boca, fiquei ali parado por horas, pequeno e de boca aberta, sem dizer palavra.

As amigas não ajudavam, olhando para mim e comentando, elas comentavam tudo, abafavam risadinhas e apontavam discretamente, e logo quase toda a classe observava a minha miséria. Angelina parecia impaciente, me olhava como se perguntasse o que eu queria. O calor aumentou, abri a boca e a voz não saiu, eu via todos ali me olhando e Angelina, enorme e deslumbrante Angelina postada à minha frente, querendo saber o que eu tinha a dizer, o zumbido esmagador e o ar que me faltava, o ar que tinha virado água morna, um pão, lembrei do consultório do dentista, aquela aflição, o doutor abrindo minha boca e o zumbido do aparelhinho, a angústia do ferro pegando nos dentes, puxando e puxando, todo mundo me olhando e por fim eu disse, Angelina, acho que eu te amo.

Então tudo ficou em silêncio.

Em poucos segundos que para mim foram dias ali parado, suando nas mãos, o som ia voltando. Começou baixo, uma risada aqui, outra ali, e foi aumentando, aumentando, e logo a sala toda gargalhava como se fosse circo, eu no picadeiro, parado, Elias e Eduardo, o repetente, riam de perder o fôlego, os traidores, e Angelina, a imensa Angelina, avermelhou-se e sacudiu a cabeça, envergonhada, recolheu os livros e saiu pela porta com a sua beleza toda, me deixando ali sem resposta alguma, só a carteira vazia, mergulhado nas gargalhadas.

(continua)