quinta-feira, 23 de julho de 2009

alpargatas - parte 7 (final)

Oi, ele disse, o sorriso cínico debaixo da barba rala. Eu era uma borboleta daquelas bem coloridas, no meio de um furacão, bem no olho dele. Tudo calmo e tranquilo onde eu estava, mas para qualquer lado que eu olhasse via só outra maneira de me perder.

Mandei um beijo para a minha mãe e terminei a conversa inventada, tentando manter uma expressão indiferente. Oi. A Bi não sabia o que fazer. Disse para ela ir que eu já a encontraria na Guanabara. Ao inferno com a moderação.

E aí, como você anda?, ele perguntou, Li sua resenha no jornal dessa semana, muito boa. Ele estava sendo charmoso daquele jeito dele, mas não ia funcionar, não dessa vez. Tou bem, obrigada, respondi, bom que gostou da resenha. Não que ele se importasse, não de verdade.

E o que você anda fazendo? Quer dizer, além de trabalhar? Terminou o mestrado?

Terminei, menti. Afinal, que diferença faria? Ele nunca iria saber. Era só ele tentando inventar um assunto que não existia. Não tinha mais nada em comum entre nós, pensei, os silêncios eram constrangedores, eu não sabia mais o que dizer. Não tinha mais nada a ver. Velhas novidades, quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas. E ainda assim...

Ele percebeu. Eu sabia disso porque vi nos olhos dele, no jeito dele de sorrir de lado. Percebeu tudo ali naquele instante, percebeu a máscara que eu usava e eu sabia o que viria, sabia e era inevitável como morrer é inevitável e como foi inevitável o embrulho que deu no meu estômago.

Tentei te ligar, sabe, depois. Mas você nunca atendeu, não deix-

Pára. Nem começa, cortei. Eu tremia de leve e virei a cabeça de lado, podia sentir tudo vindo, começando a voltar. Ele sorria e me olhava complacente, e eu fiquei irritada, senti raiva, e senti mais raiva ainda quando percebi que a raiva nem era dele, era raiva de mim, de não ter esquecido e de deixar tudo aquilo voltar e de não conseguir nem disfarçar que eu estava tremendo. Por que ele não parava? Por que não podia deixar tudo como estava?

Ele abaixou a cabeça e suspirou, e eu cruzei os braços, sem conseguir olhar para ele.

Olha, ele disse, eu só queria pedir desculpas, sabe, quando eu liguei.

Não faz diferença, passou, menti, e ele sabia que era a mais descarada das mentiras. A mãe de todas as mentiras. Pinocchio sentiria orgulho de mim, e eu tremia mais e sentia o peso dos anos de poeira que eu deixei juntar por cima. Doía porque eu sabia que ele estava sendo sincero. Era injusto, totalmente injusto, tinha passado tanto tempo! Não era a mesma coisa, era um tipo de saudade doída, uma espécie de decepção que me encantava. Porque aquela saudade que eu sentia, aquela saudade eu já tinha calejado antes mesmo de senti-la, e de certa forma isso era triste. E ainda assim ele estava ali, sentado na bola de ferro e olhando para mim, e eu ali apalermada, meu rosto desmanchando e minha respiração apertando e meu coração dando um nó, não era justo.

Eu sabia que não tinha acabado, não ainda. E veio quando eu pensava que seria uma boa idéia se chovesse de novo, se eu tivesse uma boa desculpa para correr e me abrigar da água debaixo de uma marquise qualquer, com a Bianca, me abrigar de engolir todos os cacos do que tinha sido, e pior, sempre pior, os cacos do que nem tinha chegado a ser, meus cacos.

Ele me olhou e eu vi que seus olhos brilhavam, molhados, como os de uma criança, e a voz dele saiu como se viesse se de um tipo de sonho, nem parecia dele, sem afetação nenhuma, sem aquela segurança adolescente que ele sempre projetava, só isso, vacilante e sincera, dolorosamente sincera, Senti tua falta, sabe? Esse tempo todo, senti tua falta...

E eu senti o gosto salgado e morno na ponta da minha língua, porque então já não tinha máscara nenhuma, lágrimas colavam meus cabelos no meu rosto e eu tremia às sacudidas, quando percebi que eram na verdade soluços, cabelos, lágrimas, lembranças e o rosto dele me olhando, sentado ali naquele imenso ovo de ferro enquanto os carros passavam e algumas pessoas passavam e um vento de chuva soprava no leblon, tudo se misturando dentro de mim, e tudo foi meio que desaparecendo e perdendo a importância magnânima da perspectiva, e eu lembro que só o que eu queria era pedir de volta as minhas alpargatas, beges e bregas e gastas, esquecidas em algum canto daquele apartamento onde ele tinha me prometido um monte de coisas sem dizer uma palavra, e onde, também em silêncio, ele tinha quebrado essas mesmas promessas.

4 comments:

Lari disse...

Puta que pariu! Muito bom!
Beijão

Andressa Chinzarian disse...

Surpreendente! E criativo! Continue assim! PARABÉNS! Beijocas.

Leonardo ViSo disse...

gostei do final. eu gosto dessa narrativa bem descritiva ou dessa descrição bem narrativa, vai saber. ehehe. a bia podia ficar esperando com o cara do torpedo, tadinha.

Naná Bia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.