terça-feira, 21 de julho de 2009

alpargatas - parte 6

À noite tudo é possível. Quer dizer, parece que você pode ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa, só que sempre amanhã. Tudo é possível, mas ligeiramente fora do alcance. Apesar de ser uma idéia ridícula, sem nenhum sentido, ainda assim a sensação é boa, como um copo de absinto que você sabe que é falso, mas ainda assim deixa uma sombra de fada verde circulando ao redor da sua cabeça.

Na verdade é como usar uma bengala para tentar substituir uma perna, uma grande e inútil mentira. E é uma faca de dois gumes, essa mentira, essa esperança, porque se à noite tudo parece possível, nada mais natural do que a possibilidade de uma boa e sólida merda, e assim toda aquela sensação boa e a fada verde e tudo o mais não passa de uma cortina que cobre um palco. E que pode cobrir uma estrela tão bem quanto pode esconder a pior platéia do mundo.

Mas naquela hora a única coisa que me impedia de alcançar o tudo que eu achava que era possível era um buraco vazio no meu estômago, e o lanchinho poderia iluminar a humanidade, e talvez a noite.

A Bianca caminhava um pouco à frente, tropeçando, virando o pescoço para falar comigo e tentando salvaguardar um pouco de dignidade, e eu, atrás, ditava o caminho até o último reduto da gastronomia noturna do leblon. Eu não conseguia decidir se era melhor manter o regime comendo um naturebazinho básico no Bibi ou se chutava o balde e encarava uma pizza na Guanabara. Enquanto pensava, e assim de supetão, a Bianca parou e virou o rosto, pálida, eu não entendi nada, e ela até tentou me parar e inventar uma desculpa para desviar, mas já era tarde.

Não. Não podia ser. Eu não o vi. Alguém me diz que eu não o vi. Mas era noite e tudo era possível, ou pelo menos parecia, e enquanto eu nem tinha tempo para pensar na ironia que é brincar de otimismo quando tudo parece possível, eu já o tinha visto e era tarde demais.

Ele estava sentado em uma daquelas bolas de ferro que ficam espalhadas pelas esquinas do leblon, parecia uma galinha chocando um ovo, uma galinha sem penas e com barba por fazer chocando um imenso ovo de ferro numa esquina do leblon, a mesma cara cínica que eu tinha aprendido a esquecer depois de tanto tempo e que eu achava que tinha certeza que não ia mais me atingir.

Olhei para a Bianca que me olhava de volta, com cara de aflição, como antes, como quando ela tinha me visto em pedaços na porta da casa dela depois de tudo, sem saber o que fazer enquanto eu soluçava, e então decidi engolir tudo. Não dava para viver assim, com essa sombra, e não era certo eu desviar do caminho para não ter que encarar o que nem mais deveria existir. Continuei a andar, e a Bi arregalou os olhos como quem pergunta Tem certeza?, e porra, claro que eu não tinha, mas me pareceu que o melhor era fingir que tinha.

Acho que ele ainda não tinha me visto. Na verdade era o que eu dizia para mim mesma, esquizofrênica, mas sabia que já tinha visto. Tentei parecer segura, caminhando em silêncio, a Bi do meu lado, então faltou coragem e eu não quis encarar, mas já era tarde para voltar e a única coisa em que eu consegui pensar foi no meu celular, isso, eu atendi uma ligação imaginária da minha mãe, e a Bianca deve ter achado que eu era louca, porque a conversa fluía, eu tinha uma resposta para cada pergunta dela que eu inventava e dei até risada, não se preocupa mãe, tou com a Bi, a gente só tá indo comer, não, vou dormir em casa, tudo bem, pego um táxi, e por aí foi, ridículo.

Achei que assim ele não teria coragem de vir falar comigo, eu estava no telefone e não tinha nem reparado que era ele ali sentado. Eu estava falando no telefone. Era o que eu esperava, mas eu sabia que não ia ser assim tão simples, nunca é, o prego sempre dói mais para sair do que para entrar.

1 comments:

Naná Bia disse...
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