segunda-feira, 18 de maio de 2009

alpargatas - parte 4

Quando o garçom trouxe a conta, ele também entregou para a Bianca um guardanapo rabiscado, desses de bar mesmo, de apertar baseado. Só que não era bem um rabisco. Olhando melhor eu vi que era um desenho, um retrato nosso, sentadas à mesa do Diagonal, e um númerdo de telefone embaixo. Um desenho bonito, pra dizer a verdade, feito provavelmente com caneta bic, mas muito bonito. Lindo, até, eu meio que de perfil e a Bianca com um olhar perdido, sonhador, e um sorriso de Mona Lisa. Não tinha nome nenhum, só uma letra M com um pontinho, M., e um telefone. A Bianca olhou, deu risada, falou mal, que ela não era vesga daquele jeito, disse que era brega, fez pouco. Mas sei que ela gostou. Sorrateiramente, enquanto eu passava o cartão, ela dobrou o papel com cuidado e o colocou na bolsa. Não gostou, pois sim...

Então saímos dali, a Bianca disfarçando o sorriso e passando sem olhar pros lados, fazendo tipo, e eu fui atrás pensando que talvez aquilo tudo fizesse sim um tipo de sentido. Olhando pra trás, eu vi que um carinha nos acompanhava com os olhos, sorrindo, provavelmente o tal M.. Até que era bem bonitinho.

Comentei isso com a Bianca enquanto caminhávamos para a tal boate e me arrependi antes até de ter fechado a boca. Ela ficou nas nuvens, conjecturando sobre o DNA do tal, até quase a porta da boate. O tempo todo disparando rajadas de perguntas, como ele era?, era bonito?, tinha cara de inteligente? será que tinha dinheiro?, será que..., não sei, Bianca, NÃO SEI, eu gritei. Eu me senti um pouco mal por ter feito isso. Tudo bem, talvez tenha sentido uma ponta de inveja dela, do guardanapo que ela ganhou, da atenção que ela recebeu. Depois me senti idiota por ter sentido inveja de um guardanapo, e por ter sido impaciente com ela. Afinal, era pra eu dar apoio e ela era minha amiga, não era? Pedi desculpas pra ela, e ela deu risada, me chamou de biscate e de Viúva Porcina e ficou tudo bem de novo.

E então veio a fila. Foi meio brochante chegar até ali e ver a fila dobrando a esquina. Não conseguia conceber ficar ali, na rua, esperando horas pra entrar num lugar onde eu nem queria entrar. Puta merda, Bianca!, e ela Calma que eu vou falar com o segurança, botei nossos nomes na lista, calma lá!, dito e feito. Quando eu estava quase pedindo as contas e indo embora, a Bianca me chamou ali da porta. Tudo certo, vamos entrar agora!, e eu senti um alívio estranho, olhei a cara das pessoas na fila, que me olhavam feio enquanto eu passava na frente delas, e aquilo me deu um até um calorzinho por dentro. Senti um pouco de vergonha. Mas me senti importante, não sei explicar, bobeira. Culpa dos chopes de antes, provavelmente.

Então, distribuindo cotoveladas e pisando em dezenas de pés, entramos na Melt.

(continua)