sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

bronzeado

Tinha mais do que parecia debaixo daquele biquíni, bem mais do que parecia, não era só o corpo dela e o bronzeado, ela sabia que também tinha um coração. Mas eles não sabiam, ali na areia, não sabiam e na verdade não se importavam. Era uma espécie de miopia, viam ali o biquíni, o corpo dela e parava por aí, o olhar não seguia adiante e pro coração ninguém fazia questão de olhar.

Mas ela não achava ruim que eles olhassem, não achava mesmo. Que eles olhassem e desejassem o corpo dela, que era uma escultura de bem cuidado, um orgulho. Mesmo que vissem só isso, pelo menos olhavam. E ela bem que gostava de ver os olhos deles todos percorrendo o metro e setenta dela, mesmo quando dizia que não e ignorava, com cara de quarta-feira. E todos olhavam.

Foi uma coisa pequena, um dia, quando ali pela areia mesmo passou um cara e sorriu, deu oi e olhou direto nos olhos, bem nos olhos, e ela fez cara de que nem era com ela. O cara deu de ombros, paciência, e continuou a andar. Ela deixou estar, ele passou e foi sentar mais à frente, sem olhar para trás. Não insistiu, não fez comentários, sentou na areia e por ali ficou, olhado para o mar.

Então que no dia seguinte o mesmo cara passou, dessa vez sem dar oi. Passou, sorriu e foi. Ela se levantou, intrigada, nem foi consciente, uma coisa automática. Ajeitou o biquíni, mexeu nos cabelos... O cara olhava as ondas, conversava com amigos. Ela se sentou, desdenhou, arrumou distração no vento e no clima. Olhava de soslaio pro cara, mas acabou que engoliu o encanto e deixou-se levar pelas risadas e coisa assim.

Alguns dias passaram e o cara não apareceu. Apareceram outros, fazendo comentários e puxando conversa, e ela ignorava. Era sempre assim, mas incomodava que não passasse aquele cara. Ela nem sabia por quê. Bonito ele nem era tanto, foi simpático e foi honesto também, olhou nos olhos dela, bem dentro deles!, e sorriu, será que não viu alguma coisa ali dentro? Mas tinha passado direto, tudo bem que deu oi, mas não fez mais que isso, não olhou pra ela e nem pro corpo dela, olhou pras ondas. Nem tentou conversar com ela outra vez...

No dia que ele passou de novo, ao lado de uma menina, ela tentou disfarçar o incômodo. Até dela mesma. Conversou e fez piadas, fez esforço. Ele passou de mãos dadas com a tal outra, indo embora. Ela olhou e deu oi, ele acenou tchau, sorrindo. A outra menina estreitou o aperto na mão dele, e foram. Ela sentiu os olhos dos outros homens todos ali na areia, olhando pro corpo dela, pr’aquele bronzeado de sol, enquanto ela olhava pra areia. E ela sabia que tinha bem mais do que parecia ali detrás do biquíni, por baixo da pele dela, coisas que ele nunca veria, um pouquinho de arrependimento e o desperdício crônico de um coração.