Ok, enquanto a criatividade não dá as caras, continuo chafurdando no baú empoeirado das minhas lembranças. Esse é da minha época de subversivo, acho que 2002, por aí. Por enquanto vai ter que servir.
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No final, nada fica. Nenhuma novidade, kaput! Uma despedida tardia. Uma despedida, adeus. Afinal, não é isso? Adão e Eva para sempre separados pela cólera de um Deus ciumento, eternamente divididos por uma antena de aço. Romeu e Julieta, Otelo e Desdêmona... separados, divididos, afastados, mortos. Sempre sozinhos no final.
O que, meu Deus, alguém me diz por favor, o que podemos esperar, afinal, de um mundo onde o máximo que se é permitido almejar é uma cena de comercial de margarina? Tentei escapar, fugir dos chavões, clichês, mas no final tudo leva à mesma coisa. Uma pergunta, não aquela impossível de ser respondida, não qual seria o sentido da vida – essa já gastaram faz tempo –, mas sim como suportar o peso de uma vida sem sentido? Para onde quer que se olhe, são as mesmas coisas, o mesmo álbum, cheio de figurinhas repetidas. Novos filmes, novas músicas, novos livros, novos carros, novas televisões de última geração e cheias de polegadas, montes e montes de novas coisas velhas. Meu Deus, será que ninguém enxerga um palmo à frente do nariz?
A vida vale cada vez menos, isso é indiscutível. As pessoas morrem por cada vez menos. Algum dia vou me levantar e levar um tiro por não ter feito a barba de manhã. Ou porque alguém resolveu que gostou das minhas meias. Ou que não gostou delas. O que fazer? De quem é a culpa? Onde está Deus? De repente lavando as mãos. E enquanto isso, na sala da justiça, os donos do Mundo S.A. discutem barreiras comerciais ao mesmo tempo em que milhões de crianças, adultos e velhos estão ocupados em depósitos de lixo. Procurando o jantar. Gente...! (o bicho, meu Deus, era um homem!)
Muita gente. E a televisão e as revistas e o rádio e a grande rede global de informações e diabos, todo o mundo gritando o tempo todo, faça isso!, seja assim! Quem não conseguir está fora do jogo. Dinheiro! Compre! Consuma! Gaste, goste, a felicidade é dirigir uma Ferrari, e não sai por menos. Fama! Seja alguém! Seja famoso, apareça, cobre da vida seus quinze minutos, você é especial, único! Entre na fila, meu irmão, se humilhe, a torta é amarga. Sexo! Uma, duas, três mulheres, quanto mais melhor, trepar é bom! Copule, fornique, pratique o coito, vale tudo!
Não sei se é só comigo, mas não preciso de mais dinheiro do que eu possa gastar ou um carro que possa ir mais rápido do que as estradas permitam. A televisão só passa lixo, a fama não serve para nada e o sexo está supervalorizado. E as mulheres estão cada vez mais iguais. As propagandas me enojam. Todos os dias sou bombardeado com um monte de comerciais de um monte de merda que eu não preciso. Beba Johnny Walker. Keep walking. Mas beba com moderação. Fume, marlboro, free, carlton, Hollywood. Mas o ministério adverte que faz mal. E o corretor automático desse programa só colocou o Hollywood em maiúsculas. Será que ele sabe que estou falando dos cigarros? Não coma carnes vermelhas. Nem gorduras. Seja light. Estou soando um pouco repetitivo, talvez seja a voz do anúncio orbitando, repetitiva, o meu cérebro. Já escrevi sobre isso antes. São as mesmas coisas, então é o mesmo texto, talvez um pouco mais amargo. Ao inferno com a moderação.
Acordo todos os dias sozinho, com pesar. Acordo sabendo que cada dia em que abro os olhos estou vendendo mais um pedaço da minha alma ao diabo. Vendendo a prazo, quem sabe não consigo uma boa taxa de juros no inferno. Difícil é dizer se já não estou nele.
1 comments:
Gostei, com moderacao!
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