sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

alpargatas - parte 1

Quer dizer, quem eu estava tentando enganar? Sabia que ia ser assim, sabia desde o começo. Era o quê?, um arroubo de loucura e pronto, tudo estaria limpo e seco, nada mais de escorregar num tapete molhado e cair de cabeça em águas passadas? Não, quem eu estava tentando enganar? Será que eu sabia mesmo? Será que alguém sabe de alguma coisa?

O vento soprava a minha saia, talvez até alto demais, mas era só vento, e eu segurava ela pela barra pra ela não subir ainda mais. Parecia que ia chover, e o Rio não é uma cidade tão agradável quando chove. Ainda mais depois de Paris, não, não é mesmo, as calçadas ficam cheias daquela terra grudenta e poças d'água que nunca secam, e o cheiro de urina fica no ar que nem um vapor amarelo. O vento soprava a minha saia e eu comecei a sentir as primeiras gotas no meu rosto e nos meus cabelos, eu xinguei alto porque sabia que ia estragar o penteado e apressei o passo, começando a desejar que eu não tivesse aceitado o convite da Bianca de ir ao cinema. Eu nem queria ver aquele filme, pra ser sincera. Não gosto dessas comédias românticas, e agora começava a chover, perfeito.

Claro que o trânsito não ajudou nadinha, o ônibus ficou todo embaçado com todas as janelas fechadas pra não molhar e eu realmente queria ter ficado em casa. Mas já era tarde pra isso, agora já tinha me arrumado e já estava no caminho. Além disso, a Bianca insistia havia dias pra gente sair e se divertir. Ela tinha acabado de sair de um relacionamento e queria curtir um pouco. Tá certo que não era nada de mais, um namorico daqueles mornos e convenientes, mais por companhia que por amor mesmo, mas ainda assim ela tinha ficado um pouco abalada. E eu tinha que ser uma boa amiga, mesmo que não quisesse ver aquele filme e nem sair na chuva.

Acho que eu tinha esquecido o que era sair. Ultimamente meu trabalho me consumia por inteira e de qualquer maneira eu tinha ficado cansada de toda aquela rotina da noite, aquela liturgia de conversas fiadas e cantadas e gente entediante tentando disfarçar o quão desinteressantes realmente são. E as boates, as boates mais pareciam um açougue, isso mesmo, vitrines de açougue, com toda aquela carne à vista, e os preços estavam sempre ali, meio disfaçados, mas ali de qualquer maneira, e todo mundo medindo todo mundo...

E eu sabia o que viria depois do filme, a Bianca com certeza tentaria me arrastar pra uma dessas casas de carne. E o pior era que eu sabia que ela conseguiria... na verdade eu andava entediada, em casa. Já fazia tempo, e pouca coisa tinha mudado. Ficava ali olhando a tevê, as paredes, e às vezes ainda batia um pouquinho. Nada que não desse pra segurar, mas uma pontadinha desconfortável. O trabalho tinha sido um bom anestésico, mas tinha cobrado seu preço, e já estava na hora..

Cheguei ao cinema e corri até a marquise desviando das poças d'água, segurando a saia e tentando inutilmente cobrir o cabelo com a bolsinha. O cinema estava cheio, e todo mundo se acotovelava no saguão para evitar a chuva. Aquilo já foi começando a me deixar desconfortável, não estava mais acostumada a isso, lugares lotados e gente se apertando, mas enfim, noves fora, zero.

A Bianca me esperava ao lado da bilheteria, ela já tinha comprado os ingressos. Pela maquiagem que ela usava, vi que estava certa sobre o que viria depois. Ela estava linda, loura e com os cabelos presos, um vestidinho preto básico mas de bom gosto, nem curto demais e nem folgado, e sandálias prateadas com saltos não muito altos. Ela sempre teve um bom olho para roupas, melhor que o meu, pelo menos.

(continua)