Caros amigos,
Este é o último capítulo das Crônicas de além-mar. Escrevê-lo não foi nada fácil, até porque significa, pra mim, muito mais do que essas linhas.
Sim, é grande. Mas é o último, então é perdoável que seja.
Estou de volta ao Brasil, como já sabem. Voltei ao Rio, voltei. E foi a melhor decisão que podia ter tomado.
Aqui me despeço de vocês, dessa lista, dessa viagem. Estou começando outra, agora. Foi uma boa aventura, mas estava na hora de terminar.
Enfim, as Crônicas acabam aqui. Eu não.
Obrigado a todos por vossa atenção nesse tempo, por dividirem comigo esse pedaço de vida. Espero que tenham gostado.
Um forte abraço,
Muitos beijos,
Thiago
Capítulo IX
(adeus, terra do nunca)
Na verdade fazia algum tempo que eu não cabia mais nessa pele, essa pele antiga. Parando pra pensar, já fazia tempo demais. De longe, agora, eu entendo os pequenos vazamentos, as pistas, as mudanças sutis nos últimos anos. O que aconteceu foi que a inércia foi forte demais, e parar de andar é tão difícil quanto dar o primeiro passo.
Agora eu vejo isso. Ali eu ainda não via, ou queria não ver. Estávamos, eu e o André, completamente perdidos.
Como tínhamos chegado até ali?
Ali, sentado na cama, o André tentou descontar no emprego. Ficar descarregando caixas e barris realmente machucava as costas dele, e era óbvio que ele não gostava. Então começou a procurar outro, um trabalho mais leve que não fosse ferrar com as articulações dele. McDonalds foi a primeira coisa que veio à cabeça. Eu já tinha visto esse filme, algum tempo antes.
Realmente o McDonalds tem essa fama de contratar qualquer um que se candidate a uma vaga. Eu não tinha conseguido, lá na França. Ser negado pelo McDonalds é algo triste, mas ao mesmo tempo estranhamente engraçado.
O André me falou que tinha enviado o formulário através do site assim que eu cheguei do trabalho. E que aguardava a resposta, que viria em até dois dias. Enquanto isso continuamos a trabalhar, a passar frio e a enlouquecer.
Logo que chegamos em casa no dia seguinte, lá estava a resposta.
Subject: Job ID 13520: Message from McDonald's
Dear André
Thanks for applying for the position of Crew Member 025 Fulham
We’ve got a rigorous selection process at McDonald’s and on this occasion, after careful consideration, we’re sorry to inform you that we will not be inviting you to attend the next stage of the recruitment process.
It’s part of our policy that we don’t give out specific reasons why an individual has not been successful, but we thank you for your interest and wish you every success in the future.
Kind regards
McDonald’s Recruitment Team
O André ficou indignado. Ele foi o segundo membro da minha família a ser recusado pelo Mc, eu tendo sido o primeiro. Não pude deixar de rir. Ele tomou providências, não deixou passar incólume o desacato. Segue a réplica:
fuck you and your shit company. fuck your reasons. Mac Donald's, Pato Donald's it's all bull shit. Company Full of food of shit! no one there have my qualifications.
and just summarizing... fuck you my bitch! i dont care who the hell rejected me.... fuck you and your mother... fuck fulham fuck all the priests. fuck the queen fuck tony blair fuck the blair witch fuck you fuck me fuck fuck fuck fuck
Desse arroubo de grosserias pouca gente se salvaria, não fosse a preguiça dele em continuar xingando. Obviamente não houve resposta, e aparentemente insultar uma multinacional através de um email no-reply deixou meu irmão satisfeito.
Então veio a minha vez. Eu não culpava o emprego, não era isso. Não era o lugar, nem as pessoas, nem meus planos. Era um pouco de tudo, e nada disso. Era eu mesmo.
E foi então que bateu.
E bateu forte, um soco no estômago e mais anos e anos de poeira debaixo de um tapete que já estava saturado, um saco cheio de fantasmas que eu nunca tinha conseguido enterrar. E o castelo de cartas desmoronou, e eu desmoronei, e tudo o mais veio abaixo junto.
Passei uma semana na merda. Engoli anos de cacos de vidro. Não vou entrar em detalhes, mas não foi nada bonito.
O pior foi ter que manter a máscara de normalidade. Quer dizer, eu ainda tinha que trabalhar, conversar e entrar e sair do metrô, fazer compras e lavar as roupas e cozinhar, e tinha que pagar o aluguel de um sonho que não fazia mais o menor sentido.
Eu tinha que encarar essa porra toda e tinha que tomar uma decisão. Esse é o tipo de decisão que você só toma sozinho, ninguém pode escolher por você. E você se sente pequeno, ínfimo, e é como se tivessem apertado o mute no mundo, um maldito silêncio. Meu irmão já tinha tomado a decisão dele. Ele ia voltar para o Brasil, e eu queria voltar também. Só que eu não podia errar, não dessa vez. Não podia me dar a esse luxo. Fiz o que me pareceu mais sensato, e esperei passar a semana do inferno. Não que eu soubesse que iria durar uma semana, eu apenas esperei. E o pior passou.
Quando acordei e vi que tinha recuperado um pouco do chão que tinha sumido, a certeza não tinha passado. Eu ainda queria voltar, apesar de tudo. Porque eu nem queria mais ter ido, em primeiro lugar... não dessa vez, já não fazia sentido antes, nenhum sentido, era um último fôlego de uma inércia que moía meus ossos e que me arrastava, que eu deixava me arrastar, vergado e resignado. Porque eu me vi sem casa, sem casa nenhuma, sem LAR, sem ela, sem eles, e fui eu quem empurrou tudo para longe. Na verdade, durante esse tempo todo, esses anos todos, era eu quem ficava, de um certo modo. Todo mundo seguia e eu ficava. E quando percebi isso tudo fez
sentido de novo, um sentido íntimo e tão óbvio que eu gargalhava, que me dava náuseas e que me fez chorar, pela primeira vez em anos, chorar copiosamente.
Foi fundo.
Na verdade não foi uma mudança no sentido de substituir alguma coisa por outra. Não foi assim. Eu não tinha me tornado outra pessoa, longe disso. Eu só me tornei quem eu sempre fui.
***
Então, nessa mesma noite, compramos as passagens de volta, eu e o André. No dia 1º de dezembro embarcaríamos para o Rio.
Daí veio o lado prático da empreitada. Tudo o que tínhamos levado dois meses construindo teria de ser desmontado e desfeito, kaput. Nenhuma novidade para mim, déjà vu, mas não por isso deixou de ser doloroso. Levamos um tempo planejando as coisas, alguns dias, talvez uma semana. Então começamos.
No pub, a conversa com a Myra foi desagradável, mas ela aceitou relativamente numa boa a nossa demissão. Ficaríamos mais uma semana trabalhando e depois adiós. A todos demos a mesma justificativa: problemas familiares. O André ainda chegou a inventar umas groselhas gratuitas, dando nomes de doenças e de familiares, mas nem precisávamos disso. Foi só pela curtição, pra ele, e em última análise não fazia diferença alguma.
Nessa última semana de trabalho eu era um zumbi funcionando no automático, estritamente burocrático. O André simplesmente passava metade do tempo trancado no banheiro, se evadindo do cheiro de trabalho, que é o verdadeiro talento dele. Todo mundo entendia, ou fingia entender. Davam tapinhas nas minhas costas, falavam que ia ficar tudo bem e eu me sentia um idiota toda vez que ouvia isso. Me sentia mal por mentir. Me sentia enjoado e envergonhado, mas era o preço do silêncio, mea culpa.
Depois que paramos de trabalhar, tínhamos uma semana livre para resolver nossos pepinos. E ainda tínhamos uma sacola cheia deles.
Primeiro tinha o lance da bagagem. Tínhamos que saber quanto poderíamos levar, e o site da TAP simplesmente ignorava solenemente a existência de malas. Ah, os portugueses... enfim, tentei ligar no call center, mas não levou a lugar nenhum. No dia seguinte fomos ao escritório da empresa tentar solucionar a dúvida. Na verdade era bem simples, só precisava saber se poderia levar o violão como bagagem de mão e se ao invés de duas malas de 23 quilos poderíamos distribuir o peso total de outra maneira, já que cada um tinha uma mala grande e uma mochila, obviamente com capacidades bem diferentes de carga. Foi como conversar com uma parede, aparentemente o conceito de violão não tem o mesmo significado em Portugal (guitarra acústica também não deu certo), perguntavam o tamanho, o peso, como se se tratasse de um artefato alienígena. E distribuição de peso era uma idéia estranha demais, quase nociva para elas. E o pior é que elas nos olhavam como se fôssemos nós os idiotas. No fim, mais de uma hora depois, saímos de lá sem resposta nenhuma, com raiva daquelas criaturas e da empresa delas. O que será eles dão para as crianças comerem em Portugal, capim? Depois resolvemos o assunto com um brasileiro, na bilheteria do aeroporto, que disse que não teria problema algum, nem com o violão nem com as malas. Em cinco minutos.
Depois veio toda a tralha que tínhamos comprado. Tudo o que o Sansão não fosse querer, varal, edredom, travesseiros, antena para a tevê, tudo isso ficaria. Não iria agradar o polonês, largar o apartamento entulhado, mas paciência. Pensei nisso como uma boa ação, o próximo a morar ali teria pelo menos um varal. Achei prudente deixar o apartamento por último, assim poderíamos tentar achar alguém pra colocar no nosso lugar e conseguir o depósito de trezentas libras de volta.
Os celulares nós conseguimos vender com um prejuízo pequeno, dez libras a menos do que tínhamos pagado. Nada mal. A chave 3g da internet deu mais trabalho, e no final o Sansão acabou arrematando-a por metade do preço. Por dó do André. Muita coisa deixamos com medo da restrição de peso das malas. E o resto das coisas eu não lembro, nem me importo. Eram só objetos, mais um punhado de coisas que evaporavam das minhas mãos. Jurei pra mim mesmo que não ia mais deixar isso acontecer. Tudo bem, pelo menos eu vou me esforçar.
O polonês maluco, Mike, foi o último a ficar sabendo. Contamos pra ele uns cinco dias antes de sair do apartamento. Incrivelmente ele se mostrou um sujeito com coração. Mesmo tendo descumprido o acordo sobre o mínimo de permanência, sem arranjar alguém para ocupar nossa vaga e dando só cinco dias de aviso, ainda assim o cara devolveu metade do depósito. Foi bacana, e precisávamos da grana.
E a semana passou, se arrastou, envergou, e era um domingo quando deixamos o esqueleto do quartinho em Fulham e arrastamos nossas malas pra casa do Sansão. Olhei pra trás antes de fechar a porta pela última vez. De um certo modo foi triste, olhar para trás e ver o varal, os edredons e travesseiros meio que dando um tchau. Era bem mais do que isso que dava tchau, era de muito mais que eu me despedia... mas nunca me senti tão certo. Fechei a porta e saímos para o frio.
O último dia foi bastante silencioso. Conversamos um pouco, mas não havia muita coisa a dizer. Passamos a maior parte do tempo assistindo tevê. O Sansão ligou para o táxi e às duas da manhã nós nos despedimos, eu e André, dele e da Livia. Nos despedimos, até mais ver, meu irmão, se cuida por aí, obrigado por tudo. No caminho até o Heathrow, pela janelinha do táxi, imaginávamos o que será que cada um dos nossos amigos estaria fazendo, nossa família, nossa casa. Não faziam idéia de onde estávamos, de que estávamos voltando, não tínhamos contado a praticamente ninguém. Mais porque nós mesmos não sabíamos direito o que dizer, na hora. Ninguém sabia o que estava acontecendo, e isso é uma coisa estranha, como se estivéssemos mais sozinhos do que nunca. Pela janelinha do táxi a cidade passava escura e molhada, dormia, adeus Londres, Europa. Em algum lugar ali ficavam uns quilos de planos que não faziam mais sentido, adeus pele antiga. Foi uma longa viagem, mas já era hora de ela terminar. Adeus, terra do nunca.
Passamos a noite no aeroporto. Não foi agradável, mas foi o que foi. O André, no auge da inspiração, tinha tomado um litro de leite integral puro antes de entrar no táxi. Sem ter o hábito, tomou só porque achava bonitinho o leite na tevê, todo branquinho e cremoso e caindo em câmera lenta. Genial. Foi ali, no saguão do aeroporto, que a flatulência começou. Primeiro o tumulto no estômago, barulho de terremoto, depois... enfim, deu pra entender. Ela nos acompanharia através da Europa e do Atlântico. Simplesmente genial.
Tive problemas com o violão. Sabia que ia ter. Então dei uma de João-sem-braço, e fui dizendo que a pessoa anterior tinha dito que poderia levá-lo na cabine sem problemas. Isso pareceu confundir os portugueses, eles não sabiam o que fazer nem como reagir, e no final consegui levar o violão comigo, onde fomos recebidos pelas aeromoças portuguesas vestidas com horríveis roupões para o frio, pareciam umas árvores de natal vermelhas, uma coisa ridícula, e sempre com aquele bom-humor tipicamente lusitano. Ah, TAP...
O vôo saiu de manhã, passamos por Lisboa, onde tivemos mais uma demonstração de como funcionava a lógica portuguesa. Mesmo depois de termos acabado de sair do avião tivemos que enfrentar uma longa fila para pegar a conexão, simplesmente porque tinha outro raio-x no caminho. O que diabos eles esperavam? Que tivéssemos comprado armas e drogas com o motorista do ônibus que nos levou do avião ao terminal?
Mas conseguimos pegar o vôo, no final. Foram longas horas, mas pelo menos conseguimos um lugar na saída de emergência. Não dormi um minuto sequer, mas pelo menos não éramos o recheio de um sanduíche de poltronas da classe econômica.
***
Pela janela do avião, o mundo passava, escorria na nossa frente. Eu olhava para toda aquela paisagem, para todo aquele oceano que me olhava de volta, e imaginava o que é que tinha acontecido. Quer dizer, como as coisas tinham ido tão longe? Ok, eu até conseguia ver algumas razões, mas de qualquer maneira o resultado não mudava, e também já não importava tanto. Talvez tivéssemos precisado disso, não sei. Quem pode dizer? É só o que aconteceu, e isso basta. Eu já tinha feito a minha escolha. Escolhi voltar, apesar de tudo, escolhi crescer, escolhi uma coisa maior do que eu mesmo... escolhemos, na verdade. Não escolhemos fácil, mas escolhemos bem. E eu nunca me senti tão livre. Não conversamos muito no avião, eram só as horas passando e a água lá embaixo passando e a vida passando sem suspeitar do que se passava ali em cima, uma outra viagem.
Quando a terra começou a se anunciar, a terra!, meu Deus, o Brasil, meu coração disparou e meu sangue gelou e eu não sabia direito o que pensar, não fazia idéia do que eu ia DE FATO sentir, mas isso não durou. Eu vi o mundo ali de cima e vi a vida que eu queria ter e as últimas dúvidas passaram, evaporaram, simples assim. Então eu sorri, ia ficar tudo bem. E sei que algumas pessoas estariam orgulhosas de mim, de nós, ah mãe, vô, vó... que falta imensa... Em algum lugar, acho que estão. Tenho certeza. E a tudo o que ficou para trás e que vai deixar saudades, adeus, obrigado. Foi uma viagem longa, mas tinha que acabar. Já era hora. Não era mais sobre o que eu tinha perdido, era sobre o que eu ainda vou construir. Então o avião sobrevoava a praia e de longe dava pra adivinhar a casa que eu esperava, e que estava bem ali e que sempre esteve, a minha. Dessa vez eu estaria do lado certo do aeroporto. E eu vi o Rio de Janeiro da janelinha, e o sol batendo no mar e as árvores como que de brinquedo, e então já era outra coisa, outra chance, outra vida.
fim
4 comments:
não o conheço, mas acho que acabei conhecendo um pouco da sua sinceridade nesses relatos. me fez pensar sobre essa busca de algum lugar e de saber a hora de parar.
Que viagi hein... :) Mal fiquei sabendo que vcs iam, mas fico feliz de terem voltado!
Brigatti, acho que na verdade nem precisa me conhecer pra entender o que aconteceu... que bom que te fez pensar. Saber parar é foda, tão foda quanto saber começar, e eu levei anos pra conseguir.
Obrigado pela visita, e pelo comment.
"Não era mais sobre o que eu tinha perdido, era sobre o que eu ainda vou construir."
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