Isso não é um balanço.
Não que tenha sido um bom ano, não para mim. Não que tenha sido de todo ruim, tampouco. Não que pessoas não tenham sangrado. Não que não vá deixar saudades, nem que não tenha me marcado. Talvez sim, talvez até fundo demais.
Queria escrever alguma coisa engraçada, mas não vai dar. Realmente quero que esse ano acabe. São três letras, apenas. Paz. Nesse reveillon me visto de branco.
Sangue, saudade e cimento
Cinco sentidos sem razão de ser
Sexo sem sentimento, nem ressentimento
Melhor esquecer
Nada salva quem não quer ser salvo
Deus não salva ninguém
A vida inteira a gente espera um sinal
O que acontece se o sinal não vem?
E tudo começa. As pessoas entram na sala e tomam seus lugares
O narrador, em tom monótono, diz alguma coisa e enche a sala
De tédio
É como se fosse um grande, imenso furacão que passa e deixa tudo
Em pedaços... na melhor das hipóteses é morte, na pior é amor
Seus olhos tristes e cabelos de anjo...
Não tinha medo, mas acontece que cresci
***
Não que não vá chover. Ao contrário, acho que vai. Mas amanhã não sei, e amanhã é outra coisa.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
crônicas de além-mar - capítulo viii
(gosto e cheiro)
Então dois dias depois o Menta foi embora, grande amigo... e voltou para a Espanha. Eu fiquei, o André ficou, e tudo ficou. E começou a rotina, a boa e velha rotina. Eu trabalhava em geral das cinco da tarde à meia noite e meia, de terça a sábado. Nada mal, ganhando 5,75 libras por hora (mínimo) e fazendo uma média de 40 horas por semana. Mas alguma coisa tinha começado a me incomodar, mesmo assim. Depois entro em maiores detalhes.
O André continuava sem emprego, e isso não era bom. Afinal, o alguel estava lá, e a crise que deu aqui aumentou o índice de suicídio em pelo menos 20 porcento.
A gente começou a conhecer o pessoal da casa (ou deveria dizer a fauna da casa), que vou chamar, por falta de denominação menor, de embaixada da Bulgária. Sem exagero, a maioria esmagadora do pessoal aqui é da Bulgária. E que criaturas porcas.. achei que depois do André não conheceria ninguém que pudesse causar tanto estrago em uma só pia, mas me enganei. Cuspir para cima é meu esporte favorito, como se percebe. Tem o Stoichkov, a namorada ele, o Sloth e a namorada dele, o dois-de-mim sozinho, mais uma empregada muito doida que mal fala inglês, todos búlgaros.
E tem um cara da Argélia, que está aqui há mais de dez anos e que aparentemente ficou esse tempo todo sem falar com ninguém, cujo nome até hoje não entendi, e por isso o batizamos homem da cobra. Pois bem, o homem da cobra é um sujeito esquisito, mas simpático ao seu modo. O grande problema é que, se calhar de encontrar o sujeito, pode-se contar com a perda de pelo menos meia hora da sua vida ouvindo sobre assuntos os mais aleatórios, desde a utilidade da internet nos dias de hoje até como o excesso de detergente pode estragar as roupas na máquina de lavar. Sujeito legal, o homem da cobra. Mas evitar uma dosagem muito alta é recomendado.
E tem também um inglês, de Newcastle, personal trainer em uma academia, que adora falar. A primeira vez que ele me viu, eu estava alongando as costas na cozinha e acabei fazendo exercícios para demonstrar minha elasticidade, porque ele estava convencido que eu tinha dores crônicas nas costas pelo jeito que eu andava. E como fala, o maldito... o pior é que eu não consigo entender uma palavra do que ele diz. Já ouvi inglês de todos os países, credos, religiões e etnias, mas tenho que reconhecer que, se um dia eu acabar por acidente em Newcastle, vou ter que encontrar meu caminho para fora dali na base da mímica. Rapaz...
Tem um outro André brasileiro aqui, um cara que a princípio achamos que era um tanto quanto afeminado, mas que mora com sua namorada bielorrussa na suíte no térreo. Bacana, o indivíduo, apesar de esquisito. Conversamos com ele poucas vezes, mas pelo que deu pra entender ele é DJ e mora aqui há seis anos. Uma observação de cunho antropológico, meramente: pouco ou nada do que ele fala faz sentido, se é que dá pra entender.
E se antes eu suspeitava que tínhamos acabado em um hospício, as dúvidas desapareceram quando eu conheci o Richard, um sul-africano que é o responsável pela reforma no subsolo do prédio. Da primeira vez que conversamos, ele parecia um sujeito normal, equilibrado. Era casado, 38 anos, tinha uma filha e morava aqui há 10 anos. Pois bem. Da segunda vez, uma semana depois, não entendia nada do que ele falava. O cheiro de álcool denunciava. E assim foi, vez após outra, ele não se quedava um minuto sequer sóbrio, nem um minuto. Uma vez testemunhei ele colocar a mesma fatia de pão quatro vezes na torradeira, mesmo depois de eu ter avisado várias vezes. E o pior, a obsessão dele com o Keanu Reeves.
Desde a primeira vez que conversamos, a única que nos encontramos e que ele estava sóbrio, ele fez questão de enfatizar a semelhança. Fiz piadas, reclamei que não tinha o salário do ator, mas ele não deixava estar.
A última vez foi a gota d’água. Eu estava escrevendo, no meu laptop, na cozinha (o único lugar onde se pode fumar aqui dentro) quando entra o Richard, cambaleando. Logo de cara, ele disse que tinha visto um filme no dia anterior, e que o ator era a minha cara. De novo eu fingi que não sabia do que ele estava falando, só por cortesia. Eu estava um pouco deprimido, cheio de dúvidas antigas, essas coisas que a vida faz com a gente. Times of change, sabe. Tentei conversar com um completo estranho, perguntei coisas sérias, sobre felicidade, amor, casamento, filhos, coisas que me assustam desde sempre mas que eu sempre tive receio de conversar com intimidade. E que hoje não me assombram mas, mas foi como falar com uma pedra. E foi quando começou a ladainha. Por vinte minutos ele discursou como eu deveria ir para Hollywood e tentar carreira como dublê do cara, mesmo depois de eu expressar meu desconforto com a idéia, mesmo quando eu disse que preferiria ser enterrado vivo do que seguir essa carreira. E a cada frase, ele introduzia o assunto como uma novidade, uma epifania, uma força da natureza.
Então os búlgaros entraram na cozinha, pedindo ajuda para carregar uma mesa para o quarto deles.Aproveitei a oportunidade para tentar fugir, mas foi inútil. O Richard veio atrás, tropeçando, oferecendo ajuda que eu sei que ele não poderia dar. Eu tinha acabado de abrir a porta da entrada quando ele começou: Thiago, vem aqui, preciso conversar com você, é importante. Eu não entendi nada. Tentei continuar ajudando os búlgaros, mas não adiantou. Ele me puxou e repetiu que era de extrema importância. Sem saída, eu o segui até a rua. Em seguida, atravessamos a faixa de asfalto e entramos em uma loja que estava em reforma, fechada. Lá dentro, dois homens trabalhavam o piso, encaixando azulejos sistematicamente. O Richard me explicou que eles eram brasileiros, e que gostaria de saber o que eles estavam fazendo.
Eu não acreditei no que ele estava me pedindo. Quando tínhamos entrado naquele lugar, eu imaginei que ele trabalhasse ali, que ele conhecesse aquela gente, mas não. Nunca tinha entrado naquele lugar antes. Nunca tinha falado com aquelas pessoas. E pediu para eu falar com eles em brasileiro, e eu resolvi que seria melhor não tentar explicar que a língua que se fala no Brasil é o português. Balançando para lá e para cá, ele pediu que eu perguntasse o que eles estavam construindo, por que eles o estavam fazendo e quando estaria pronto. Apesar de não fazer sentido nenhum, eu fiz o que ele me pediu. Os brasileiros estavam tão embasbacados quando eu, mas se resignaram a responder. Eu senti vergonha, tristeza, vazio e por várias razões, mas continuei ali por inércia. Quando eu pensei que o pior tinha passado, ele pediu para eu dizer para os sujeitos que ele “vinha em paz” e, sem alternativa, eu traduzi. Não sabia mais o que fazer, embarquei na situação. Os brasileiros riram, fizeram sinal de aprovação e mais nada. Foi aí que eu saí pela porta, e o Richard me seguiu.
Depois ele ainda falou sobre a história de cada loja no raio de duzentos metros daquele prédio, os proprietários, porque tinham fechado ou aberto, e começou a falar de um filme que tinha visto com alguém que se parecia comigo, mas eu já não ouvia nada. Então deixei aquela sombra de homem ali e voltei para o quarto, sem as respostas que eu precisava... e como aquilo me afetou... nunca tinha me sentido tão perdido. E eu estava convencido de que sim, estava em um hospício. E pagando caro por uma vaga.
***
Meu trabalho era a coisa mais estranha do mundo. Eu já fiz um pouco de tudo, mas nunca tinha me sentido daquele jeito... Era uma coisa solitária, apesar da multidão. Eu andava a esmo pelo pub, recolhendo copos, e ouvia pedaços de conversas, beijos, música, toda a idiossincrasia da vida se expandindo ao meu redor, mas me senti sempre o mais solitário dos homens. Conversava com muita gente o tempo todo, em várias línguas, mas não isso nunca evitou o vazio que eu sentia, nem nunca mudou a coceira e a dor e a falta que eu sentia...
Mas eu já passei por coisas piores, ou pelo menos era o que eu pensava, e então continuei ali. Até que consegui uma vaga para o meu irmão, no mesmo pub.
Ele começou como barback, e logo a proprietária do lugar estava apaixonada por ele. Chamava ele de “meu herói”, sorria quando ele passava, e essas coisas que só quem conhece meu irmão entende. E ele gostava, pelo menos no começo.
E então eu achava que estávamos felizes, que tínhamos encontrado tudo que procuráramos durante tanto tempo, depois de tantas perdas... e parecia certo.
Só que alguma coisa estava acontecendo. Não entendíamos bem, eu e o André. Na verdade, acontecia desde que chegáramos aqui. Depois de muito pouco, as coisas estavam perdendo a cor. O gosto, o cheiro. Não estava fazendo mais sentido. No íntimo, sabíamos o que era. E como sabíamos... mas não conseguíamos admitir, sangue do mesmo sangue que somos, alma da mesma alma. Então um dia acordamos, e, mesmo sem conversar, alguma coisa tinha mudado. E mudado profundamente, mais do que poderíamos ter imaginado, mais do que parecia possível em tão pouco tempo... e então estávamos nus, cada um amadurecendo de um lado, cada um com sua mudança... e as coisas já não eram tão simples, nem tão doces... E então tínhamos entendido uma coisa, uma coisa tão íntima e óbvia que parecia ilusão, uma coisa estranha e nova e ao mesmo tempo a única coisa que fazia sentido e que dava gosto... mas era um outro dia, e finalmente o sol brilhava, apesar do frio, apesar do que faltava e do que sobrava, apesar de nós...
... (continua) ...
Então dois dias depois o Menta foi embora, grande amigo... e voltou para a Espanha. Eu fiquei, o André ficou, e tudo ficou. E começou a rotina, a boa e velha rotina. Eu trabalhava em geral das cinco da tarde à meia noite e meia, de terça a sábado. Nada mal, ganhando 5,75 libras por hora (mínimo) e fazendo uma média de 40 horas por semana. Mas alguma coisa tinha começado a me incomodar, mesmo assim. Depois entro em maiores detalhes.
O André continuava sem emprego, e isso não era bom. Afinal, o alguel estava lá, e a crise que deu aqui aumentou o índice de suicídio em pelo menos 20 porcento.
A gente começou a conhecer o pessoal da casa (ou deveria dizer a fauna da casa), que vou chamar, por falta de denominação menor, de embaixada da Bulgária. Sem exagero, a maioria esmagadora do pessoal aqui é da Bulgária. E que criaturas porcas.. achei que depois do André não conheceria ninguém que pudesse causar tanto estrago em uma só pia, mas me enganei. Cuspir para cima é meu esporte favorito, como se percebe. Tem o Stoichkov, a namorada ele, o Sloth e a namorada dele, o dois-de-mim sozinho, mais uma empregada muito doida que mal fala inglês, todos búlgaros.
E tem um cara da Argélia, que está aqui há mais de dez anos e que aparentemente ficou esse tempo todo sem falar com ninguém, cujo nome até hoje não entendi, e por isso o batizamos homem da cobra. Pois bem, o homem da cobra é um sujeito esquisito, mas simpático ao seu modo. O grande problema é que, se calhar de encontrar o sujeito, pode-se contar com a perda de pelo menos meia hora da sua vida ouvindo sobre assuntos os mais aleatórios, desde a utilidade da internet nos dias de hoje até como o excesso de detergente pode estragar as roupas na máquina de lavar. Sujeito legal, o homem da cobra. Mas evitar uma dosagem muito alta é recomendado.
E tem também um inglês, de Newcastle, personal trainer em uma academia, que adora falar. A primeira vez que ele me viu, eu estava alongando as costas na cozinha e acabei fazendo exercícios para demonstrar minha elasticidade, porque ele estava convencido que eu tinha dores crônicas nas costas pelo jeito que eu andava. E como fala, o maldito... o pior é que eu não consigo entender uma palavra do que ele diz. Já ouvi inglês de todos os países, credos, religiões e etnias, mas tenho que reconhecer que, se um dia eu acabar por acidente em Newcastle, vou ter que encontrar meu caminho para fora dali na base da mímica. Rapaz...
Tem um outro André brasileiro aqui, um cara que a princípio achamos que era um tanto quanto afeminado, mas que mora com sua namorada bielorrussa na suíte no térreo. Bacana, o indivíduo, apesar de esquisito. Conversamos com ele poucas vezes, mas pelo que deu pra entender ele é DJ e mora aqui há seis anos. Uma observação de cunho antropológico, meramente: pouco ou nada do que ele fala faz sentido, se é que dá pra entender.
E se antes eu suspeitava que tínhamos acabado em um hospício, as dúvidas desapareceram quando eu conheci o Richard, um sul-africano que é o responsável pela reforma no subsolo do prédio. Da primeira vez que conversamos, ele parecia um sujeito normal, equilibrado. Era casado, 38 anos, tinha uma filha e morava aqui há 10 anos. Pois bem. Da segunda vez, uma semana depois, não entendia nada do que ele falava. O cheiro de álcool denunciava. E assim foi, vez após outra, ele não se quedava um minuto sequer sóbrio, nem um minuto. Uma vez testemunhei ele colocar a mesma fatia de pão quatro vezes na torradeira, mesmo depois de eu ter avisado várias vezes. E o pior, a obsessão dele com o Keanu Reeves.
Desde a primeira vez que conversamos, a única que nos encontramos e que ele estava sóbrio, ele fez questão de enfatizar a semelhança. Fiz piadas, reclamei que não tinha o salário do ator, mas ele não deixava estar.
A última vez foi a gota d’água. Eu estava escrevendo, no meu laptop, na cozinha (o único lugar onde se pode fumar aqui dentro) quando entra o Richard, cambaleando. Logo de cara, ele disse que tinha visto um filme no dia anterior, e que o ator era a minha cara. De novo eu fingi que não sabia do que ele estava falando, só por cortesia. Eu estava um pouco deprimido, cheio de dúvidas antigas, essas coisas que a vida faz com a gente. Times of change, sabe. Tentei conversar com um completo estranho, perguntei coisas sérias, sobre felicidade, amor, casamento, filhos, coisas que me assustam desde sempre mas que eu sempre tive receio de conversar com intimidade. E que hoje não me assombram mas, mas foi como falar com uma pedra. E foi quando começou a ladainha. Por vinte minutos ele discursou como eu deveria ir para Hollywood e tentar carreira como dublê do cara, mesmo depois de eu expressar meu desconforto com a idéia, mesmo quando eu disse que preferiria ser enterrado vivo do que seguir essa carreira. E a cada frase, ele introduzia o assunto como uma novidade, uma epifania, uma força da natureza.
Então os búlgaros entraram na cozinha, pedindo ajuda para carregar uma mesa para o quarto deles.Aproveitei a oportunidade para tentar fugir, mas foi inútil. O Richard veio atrás, tropeçando, oferecendo ajuda que eu sei que ele não poderia dar. Eu tinha acabado de abrir a porta da entrada quando ele começou: Thiago, vem aqui, preciso conversar com você, é importante. Eu não entendi nada. Tentei continuar ajudando os búlgaros, mas não adiantou. Ele me puxou e repetiu que era de extrema importância. Sem saída, eu o segui até a rua. Em seguida, atravessamos a faixa de asfalto e entramos em uma loja que estava em reforma, fechada. Lá dentro, dois homens trabalhavam o piso, encaixando azulejos sistematicamente. O Richard me explicou que eles eram brasileiros, e que gostaria de saber o que eles estavam fazendo.
Eu não acreditei no que ele estava me pedindo. Quando tínhamos entrado naquele lugar, eu imaginei que ele trabalhasse ali, que ele conhecesse aquela gente, mas não. Nunca tinha entrado naquele lugar antes. Nunca tinha falado com aquelas pessoas. E pediu para eu falar com eles em brasileiro, e eu resolvi que seria melhor não tentar explicar que a língua que se fala no Brasil é o português. Balançando para lá e para cá, ele pediu que eu perguntasse o que eles estavam construindo, por que eles o estavam fazendo e quando estaria pronto. Apesar de não fazer sentido nenhum, eu fiz o que ele me pediu. Os brasileiros estavam tão embasbacados quando eu, mas se resignaram a responder. Eu senti vergonha, tristeza, vazio e por várias razões, mas continuei ali por inércia. Quando eu pensei que o pior tinha passado, ele pediu para eu dizer para os sujeitos que ele “vinha em paz” e, sem alternativa, eu traduzi. Não sabia mais o que fazer, embarquei na situação. Os brasileiros riram, fizeram sinal de aprovação e mais nada. Foi aí que eu saí pela porta, e o Richard me seguiu.
Depois ele ainda falou sobre a história de cada loja no raio de duzentos metros daquele prédio, os proprietários, porque tinham fechado ou aberto, e começou a falar de um filme que tinha visto com alguém que se parecia comigo, mas eu já não ouvia nada. Então deixei aquela sombra de homem ali e voltei para o quarto, sem as respostas que eu precisava... e como aquilo me afetou... nunca tinha me sentido tão perdido. E eu estava convencido de que sim, estava em um hospício. E pagando caro por uma vaga.
***
Meu trabalho era a coisa mais estranha do mundo. Eu já fiz um pouco de tudo, mas nunca tinha me sentido daquele jeito... Era uma coisa solitária, apesar da multidão. Eu andava a esmo pelo pub, recolhendo copos, e ouvia pedaços de conversas, beijos, música, toda a idiossincrasia da vida se expandindo ao meu redor, mas me senti sempre o mais solitário dos homens. Conversava com muita gente o tempo todo, em várias línguas, mas não isso nunca evitou o vazio que eu sentia, nem nunca mudou a coceira e a dor e a falta que eu sentia...
Mas eu já passei por coisas piores, ou pelo menos era o que eu pensava, e então continuei ali. Até que consegui uma vaga para o meu irmão, no mesmo pub.
Ele começou como barback, e logo a proprietária do lugar estava apaixonada por ele. Chamava ele de “meu herói”, sorria quando ele passava, e essas coisas que só quem conhece meu irmão entende. E ele gostava, pelo menos no começo.
E então eu achava que estávamos felizes, que tínhamos encontrado tudo que procuráramos durante tanto tempo, depois de tantas perdas... e parecia certo.
Só que alguma coisa estava acontecendo. Não entendíamos bem, eu e o André. Na verdade, acontecia desde que chegáramos aqui. Depois de muito pouco, as coisas estavam perdendo a cor. O gosto, o cheiro. Não estava fazendo mais sentido. No íntimo, sabíamos o que era. E como sabíamos... mas não conseguíamos admitir, sangue do mesmo sangue que somos, alma da mesma alma. Então um dia acordamos, e, mesmo sem conversar, alguma coisa tinha mudado. E mudado profundamente, mais do que poderíamos ter imaginado, mais do que parecia possível em tão pouco tempo... e então estávamos nus, cada um amadurecendo de um lado, cada um com sua mudança... e as coisas já não eram tão simples, nem tão doces... E então tínhamos entendido uma coisa, uma coisa tão íntima e óbvia que parecia ilusão, uma coisa estranha e nova e ao mesmo tempo a única coisa que fazia sentido e que dava gosto... mas era um outro dia, e finalmente o sol brilhava, apesar do frio, apesar do que faltava e do que sobrava, apesar de nós...
... (continua) ...
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
a cotovia
Aquela garota, o que era aquilo, parecia um tipo de anjo sem asas, castigando os homens com tanta beleza, ele pensou. Não conseguiu parar de olhar para ela porque ela tinha lhe roubado os olhos quando passou. E de repente foi um baque, foi como se a multidão ao redor simplesmente desaparecesse. Ele olhou para as estrelas, centenas e milhares de estrelas, o escuro estrelado, e então elas pareciam que se multiplicavam, e o céu ia ficando avermelhado, meu deus, como o céu vai ficando vermelho assim, mais estrelas aparecendo, e então o escuro, o vermelho, as estrelas, tudo foi ficando mais claro, até ficar só o rosto dela, e depois nem isso.
Alguém segurou o braço dele, mas já não havia porquê. A multidão se abriu em roda, ele no centro, e um cara de terno preto segurou o braço dele, ainda com a garrafa na mão, dolorido e imóvel, estava machucando, ei, me larga, seu filho da puta, ele disse devagar, na língua dos bêbados, mas o cara não largou. Ele deixou a garrafa cair, o que restava dela, e o cara do terno apertou mais ainda o seu braço, torcia como se fosse um brinquedo, até que ouviu-se um estalo e ele gritou de dor.
Eles entraram naquele lugar tão sofisticado, mas que então parecia deprimente, escuro, o chão pastoso de suor e bebida, coberto de bitucas de cigarro, o silêncio deixando vazar um ou outro cochicho, e abriram espaço entre os que restavam da multidão em roda. Fizeram um esforço para juntar do chão aquele monte de carne espalhado, e ainda quase deixaram cair quando passavam pela porta preta, onde podia-se ler saída de emergência escrito em vermelho, e depois lançaram o saco inerte no carro, e saíram voando dali com a sirene ligada.
A multidão, o que restava dela, tratou de desaparecer dali o mais rápido possível, antes da confusão de verdade, das perguntas desagradáveis do guardinha que apareceu quase uma hora depois.
As estrelas tinham todas sumido, e o vermelho também. No atestado de óbito, os médicos escreveram traumatismo craniano grave e hemorragia cerebral. No epitáfio, escreveram os pais, um bom filho, descanse em paz.
O braço dele melhorou, e no julgamento foi considerado inocente de assassinato em segundo grau porque o pai era senador da república. Ficou sem carro por dois meses por castigo do pai.
Para os enfermeiros da ambulância foi mais uma noite de trabalho. Chegaram no hospital com o sujeito já morto. Saíram dali e foram, como sempre, para um bar, encher a cara e fazer piadas sobre o cadáver.
Ninguém ali viu mais a tal garota que tinha provocado tudo. Disseram que ela tinha se mudado de cidade, talvez até de país. Vinte e seis anos depois, uma cotovia me contou que ela era lavadeira na mesma favela em que morava antes. Agora tinha celulite, estrias, varizes e tinha vendido os dois dentes da frente. Morava sozinha e nunca teve filhos.
Alguém segurou o braço dele, mas já não havia porquê. A multidão se abriu em roda, ele no centro, e um cara de terno preto segurou o braço dele, ainda com a garrafa na mão, dolorido e imóvel, estava machucando, ei, me larga, seu filho da puta, ele disse devagar, na língua dos bêbados, mas o cara não largou. Ele deixou a garrafa cair, o que restava dela, e o cara do terno apertou mais ainda o seu braço, torcia como se fosse um brinquedo, até que ouviu-se um estalo e ele gritou de dor.
Eles entraram naquele lugar tão sofisticado, mas que então parecia deprimente, escuro, o chão pastoso de suor e bebida, coberto de bitucas de cigarro, o silêncio deixando vazar um ou outro cochicho, e abriram espaço entre os que restavam da multidão em roda. Fizeram um esforço para juntar do chão aquele monte de carne espalhado, e ainda quase deixaram cair quando passavam pela porta preta, onde podia-se ler saída de emergência escrito em vermelho, e depois lançaram o saco inerte no carro, e saíram voando dali com a sirene ligada.
A multidão, o que restava dela, tratou de desaparecer dali o mais rápido possível, antes da confusão de verdade, das perguntas desagradáveis do guardinha que apareceu quase uma hora depois.
As estrelas tinham todas sumido, e o vermelho também. No atestado de óbito, os médicos escreveram traumatismo craniano grave e hemorragia cerebral. No epitáfio, escreveram os pais, um bom filho, descanse em paz.
O braço dele melhorou, e no julgamento foi considerado inocente de assassinato em segundo grau porque o pai era senador da república. Ficou sem carro por dois meses por castigo do pai.
Para os enfermeiros da ambulância foi mais uma noite de trabalho. Chegaram no hospital com o sujeito já morto. Saíram dali e foram, como sempre, para um bar, encher a cara e fazer piadas sobre o cadáver.
Ninguém ali viu mais a tal garota que tinha provocado tudo. Disseram que ela tinha se mudado de cidade, talvez até de país. Vinte e seis anos depois, uma cotovia me contou que ela era lavadeira na mesma favela em que morava antes. Agora tinha celulite, estrias, varizes e tinha vendido os dois dentes da frente. Morava sozinha e nunca teve filhos.
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