De repente se fosse menos escroto não teria graça. Se é que tem graça. Quem sabe, se fosse mais lógico ou se fizesse mais sentido, se uma peça se encaixasse na outra e se no final um lindo panorama surgisse, uma paisagem bucólica de colinas verdes ou uma montanha, Parsifal e seu jardim mágico...
***
Eu apenas fechei o caderno e deitei de lado, exausto. Pierre voltava, atravessando a rua com mais um embrulho de papel nas mãos, e eu sabia que era mais vinho. Não dos bons, mas umas três garrafas do vinho mais barato que havia na lojinha, e eu simplesmente não aguentava mais. Era a terceira vez naquela noite que ele descia as escadas, atravessava a rua e gastava o dinheiro que EU tinha ganhado com aquela desculpa. "Bebamos, bebamos", dizia, "On boit? Une boteille, vas-y!", repetia até me cansar os ouvidos e eu atirar alguns trocados no chão.
Eu não reagia. Era, afinal, inútil discutir com ele. Normalmente seguro bem o vinho, até mesmo os da pior espécie, mas não era uma situação normal. Os carros passavam lá embaixo, e eu não me sentia nada bem. Ouvi alguns gritos pela janela, alguém urinava da varanda do andar de cima e os transeuntes não pareciam nada felizes com isso. Dessa vez não era Pierre - eu ainda podia ver sua jaqueta imunda e surrada cruzando a rua, segurando aquele pacote amassado. Ou será que era ao contrário? Em alguns casos você nunca pode ter certeza sobre quem segura quem.
A gritaria tinha aumentado e eu pensei ter ouvido uma sirene, mas no final não era nada. Você tem que reconhecer o valor dos franceses. Você pode urinar sobre a cabeça de um e, no final, tudo que eles fazem é gritar algum desacato de volta. Um espanhol te esfaquearia. Um russo provavelmente esquartejaria a sua família inteira. Mas um francês apenas despeja cinco minutos de retórica em seus ouvidos e escreve um manifesto.
Pierre entra pela porta como se fosse a primeira vez, ou como se nunca tivesse saído antes. Ele sempre faz isso, um estrondo, leve e pesado, como uma pedra com asas. Isso bem na hora em que eu me levantava para ir ao banheiro vomitar. De novo. Não sei por que eu dava dinheiro para ele comprar aquela merda, se eu acabava botando tudo esgoto adentro. Ele era como uma segunda personalidade, só que dessa vez a primeira não queria ceder e eu ainda me sentia mal.
Balbuciei alguma coisa antes de expulsar a última garrafa de merlot barato das minhas entranhas, mas o barulho da rolha sendo arrancada da garrafa apagou instantaneamente qualquer significado que eu quisesse transmitir. Pierre tinha vencido de novo. Imediatamente esqueci que me sentia mal, lavei minha cara sem olhar para o espelho e enchi outro copo.
"Por que é que toda vez que eu te dou dinheiro você traz essa merda? Essas garrafas não valem metade do que eu te dei", disse-lhe, enquanto tomava um gole. "Pas de souci, mon cher", respondeu, acendendo um cigarro fedorento, "não tinha de la monnaie, então fica crédito". Pois sim. Eu podia ouvir o barulho de moedas no bolso dele. "Seu gaulês filho de uma puta, você vai pagar as próximas", respondi. "Oui, oui, clarrô, pas de souci", riu. Ee sabia que eu provavelmente esqueceria, e estava certo. Não são as mentiras que irritam você, mas as verdades que você menos gosta de ouvir.
(continua)
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
feliz aniversário
Dia 25 foi o aniversário de seis anos deste blog, data tão relevante que até eu deixei passar.
Mas, olhando agora, achei apropriado deixar esse registro. Seis anos... uau, nem eu mesmo achei que fosse durar tanto. Impressionante como não tenho realmente mais nada a dizer sobre o assunto.
Dito isso, a vida continua.
Sem mais,
Thiago
Mas, olhando agora, achei apropriado deixar esse registro. Seis anos... uau, nem eu mesmo achei que fosse durar tanto. Impressionante como não tenho realmente mais nada a dizer sobre o assunto.
Dito isso, a vida continua.
Sem mais,
Thiago
terça-feira, 6 de outubro de 2009
a lei fatal de ser como é
Para onde quer que você olhe, há sempre alguém procurando sentido em alguma coisa completamente desprovida dele, tentando desesperadamente ver ordem no que é aleatório. É como tentar encontrar padrões em nuvens ou ver o rosto de nossa-senhora-de-alguma-coisa em uma mancha de óleo na calçada, apenas tão real quanto um quilo de fé. Ou de imaginação. O mais curioso é que encontram, sempre encontram uma razão, uma justificativa. É fácil, depois, um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto ituitivo e voilà...
Quando não há justificativa aparente, há pelo menos um culpado. Se o Brasil perdeu a copa foi porque o Ronaldo estava gordo e passou mal, se o relacionamento acabou foi porque ele/a não era a pessoa certa e não te merecia, se o trabalho não vingou foi porque não era para ser, e ainda vai aparecer alguma coisa melhor. Nessas horas, o destino, Deus, o papa e até o senso comum ganham crédito e credibilidade, e explicam aquilo que simplesmente não tem explicação. É fácil ligar os pontos quando você está sempre olhando para trás.
E então o buraco está tapado, o vácuo devidamente preenchido. É como uma falsa memória que ganhou vida própria, tão bonita e perfeita quanto uma pérola de plástico. É o seu sentido, e isso basta. Porque, como já afirmava a psicóloga Lauren Slater, "nossas mentes abominam espaços em branco, estão existencialmente despreparadas para o vazio". Então, como um bom e previsível ser humano, você o preenche.
Sim, é difícil admitir que você deu um chute na trave mesmo quando achou que ia ser gol, que as coisas nunca dependem unicamente dos seus esforços. É foda admitir que muito pouco do que acontece nesse seu breve lampejo de existência tem algum propósito. Não foi isso que você aprendeu desde o início, não é? Não é essa a lição que aprendeu na escola, nos filmes e livros, não foi isso que a sua mãe lhe disse enquanto você crescia, não mesmo. E isso incomoda, porque você é um ser humano e não um bicho, e precisa ir além, não precisa?
Mas agora você já cresceu, e pode ser que tenha percebido que as coisas não são assim tão simples e que as profecias são ainda mais vazias depois que não acontecem. As coisas são como são, e isso basta. Quem sabe você tenha se cansado disso tudo, dessa brincadeira sem graça de acreditar em fadas. Quem sabe você tenha se cansado desse exercício inútil de martelar o próprio dedo procurando culpados. Talvez você tenha percebido que não são as grandes verdades, e sim as pequenas idiossincrasias, que fazem valer a pena. Sim, quem sabe você tenha decidido que é hora, é definitivamente hora de separar entre o que é justo e o que é justificativa, e que nem todo o sentido do mundo vai preencher o vazio de uma vida não vivida.
Quando não há justificativa aparente, há pelo menos um culpado. Se o Brasil perdeu a copa foi porque o Ronaldo estava gordo e passou mal, se o relacionamento acabou foi porque ele/a não era a pessoa certa e não te merecia, se o trabalho não vingou foi porque não era para ser, e ainda vai aparecer alguma coisa melhor. Nessas horas, o destino, Deus, o papa e até o senso comum ganham crédito e credibilidade, e explicam aquilo que simplesmente não tem explicação. É fácil ligar os pontos quando você está sempre olhando para trás.
E então o buraco está tapado, o vácuo devidamente preenchido. É como uma falsa memória que ganhou vida própria, tão bonita e perfeita quanto uma pérola de plástico. É o seu sentido, e isso basta. Porque, como já afirmava a psicóloga Lauren Slater, "nossas mentes abominam espaços em branco, estão existencialmente despreparadas para o vazio". Então, como um bom e previsível ser humano, você o preenche.
Sim, é difícil admitir que você deu um chute na trave mesmo quando achou que ia ser gol, que as coisas nunca dependem unicamente dos seus esforços. É foda admitir que muito pouco do que acontece nesse seu breve lampejo de existência tem algum propósito. Não foi isso que você aprendeu desde o início, não é? Não é essa a lição que aprendeu na escola, nos filmes e livros, não foi isso que a sua mãe lhe disse enquanto você crescia, não mesmo. E isso incomoda, porque você é um ser humano e não um bicho, e precisa ir além, não precisa?
Mas agora você já cresceu, e pode ser que tenha percebido que as coisas não são assim tão simples e que as profecias são ainda mais vazias depois que não acontecem. As coisas são como são, e isso basta. Quem sabe você tenha se cansado disso tudo, dessa brincadeira sem graça de acreditar em fadas. Quem sabe você tenha se cansado desse exercício inútil de martelar o próprio dedo procurando culpados. Talvez você tenha percebido que não são as grandes verdades, e sim as pequenas idiossincrasias, que fazem valer a pena. Sim, quem sabe você tenha decidido que é hora, é definitivamente hora de separar entre o que é justo e o que é justificativa, e que nem todo o sentido do mundo vai preencher o vazio de uma vida não vivida.
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Crônicas
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
com o devido atraso
Claro que tinha a polícia, vários policiais, mas eles estavam todos ocupados demais procurando bêbados para prender e carros para apreender. Não que isso não importasse, não é isso. Mas naquela hora, eu realmente não podia me lixar mais para um bêbado ao volante. Havia pouquíssimos carros na rua, era domingo, era madrugada. Três e pouco, e ainda assim havia blitz, blitzes (é esse, o plural?), e nenhum bêbado à vista.
Era copacabana, era na porta do meu prédio, era uma vez. Há duas semanas. Eu voltava do trabalho, três e pouco da madrugada, e não havia ninguém na rua, como de costume. Ninguém, exceto por mim e pelos dois marginais que vieram em minha direção. Pedaços imprestáveis de carne, fedendo e ameaçando, depois do dia que tive eu quase achei graça quando vieram e me prensaram contra a porta do meu próprio prédio. O porteiro, que dormia enquanto eu batia na porta, ainda acordou a tempo de assistir a tudo da fila do gargarejo.
Passa a grana, a gente é lá do morro (que morro?), eu vou te matar, passa tudo, tudo o quê?, não soube responder. Passa o celular, peraí, deixa eu tirar o chip, pelo menos, me dá meu chipeeeee, piada velha da semana passada passando na cabeça. Mais do mesmo, o mesmo de sempre, passa logo tudo, tó, aqui o dinheiro, não tem mais nada. Arrancou meu relógio, meu deus, quem diabos ainda rouba relógio? Tão démodé isso. Dá o celular, peraí, o chip, lembra? Deixa eu ver o celular... pode ficar com essa merda!, aí eu definitivamente achei graça, quase ri, mas nunca vou saber se a arma era ou não de verdade.
Era copacabana, era na porta do meu prédio, era uma vez. Há duas semanas. Eu voltava do trabalho, três e pouco da madrugada, e não havia ninguém na rua, como de costume. Ninguém, exceto por mim e pelos dois marginais que vieram em minha direção. Pedaços imprestáveis de carne, fedendo e ameaçando, depois do dia que tive eu quase achei graça quando vieram e me prensaram contra a porta do meu próprio prédio. O porteiro, que dormia enquanto eu batia na porta, ainda acordou a tempo de assistir a tudo da fila do gargarejo.
Passa a grana, a gente é lá do morro (que morro?), eu vou te matar, passa tudo, tudo o quê?, não soube responder. Passa o celular, peraí, deixa eu tirar o chip, pelo menos, me dá meu chipeeeee, piada velha da semana passada passando na cabeça. Mais do mesmo, o mesmo de sempre, passa logo tudo, tó, aqui o dinheiro, não tem mais nada. Arrancou meu relógio, meu deus, quem diabos ainda rouba relógio? Tão démodé isso. Dá o celular, peraí, o chip, lembra? Deixa eu ver o celular... pode ficar com essa merda!, aí eu definitivamente achei graça, quase ri, mas nunca vou saber se a arma era ou não de verdade.
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Crônicas
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
barão do pão
Procurando algum lugar aberto, quarta-feira, 3 da manhã, saindo do trabalho. Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Desde a Figueiredo que não tem lhufas, a geladeira está vazia, o estômago idem. Ninguém na rua. Vai caminhando até a Barão de Ipanema, a Barão do Pão está aberta. Faz nota mental pela milésima vez: a Barão do Pão é 24h. Desvia do pedinte, que está mais doido que o Rafael do Polegar, entra. Compra dois salgados, paga. Pega o caminho de volta pra casa.
Quase chegando, ouvindo música, olha ao redor. Alguma coisa estranha. Cadê os salgados? Volta correndo pra padaria, vira motivo de piadas dos funcionários. "Pensei que tu era mais um desses malucos aí. Sai correndo e deixa tudo pra trás, rárárá", diz o cara que atende. É abordado por bêbado de meia idade, que tenta consolá-lo: "Não liga não, eu também sou distraído. Uma vez, eu namorava uma menina em Bangu, botei 10 reais de gasolina e paguei com uma nota de 50, o feladaputa do frentista viu que eu tava distraído e não devolveu o troco. Fui perceber lá no meio da Avenida Brasil!"
Pega os dois salgados, desvia de novo do pedinte. É zombado até pelo pedinte. No mp3, Muse, birds flying high, you know how I feel. Vai pra casa escrever.
Quase chegando, ouvindo música, olha ao redor. Alguma coisa estranha. Cadê os salgados? Volta correndo pra padaria, vira motivo de piadas dos funcionários. "Pensei que tu era mais um desses malucos aí. Sai correndo e deixa tudo pra trás, rárárá", diz o cara que atende. É abordado por bêbado de meia idade, que tenta consolá-lo: "Não liga não, eu também sou distraído. Uma vez, eu namorava uma menina em Bangu, botei 10 reais de gasolina e paguei com uma nota de 50, o feladaputa do frentista viu que eu tava distraído e não devolveu o troco. Fui perceber lá no meio da Avenida Brasil!"
Pega os dois salgados, desvia de novo do pedinte. É zombado até pelo pedinte. No mp3, Muse, birds flying high, you know how I feel. Vai pra casa escrever.
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Crônicas
domingo, 23 de agosto de 2009
angelina e o amor - parte 3 (final)
Cheguei em casa naquele dia sem nenhuma lembrança de como tinha saído da classe. Só dei por mim no portão, e foi um conforto indescritível fechar a porta atrás de mim e me trancar no quarto. Eu olhava para as paredes e pensava no amor, e o rosto de Angelina não me olhava mais de soslaio, ela sacudia a cabeça e corria, arisca e avermelhada, corria porta afora.
Amor era isso? Não podia me conformar. Certamente não se parecia com o que eu tinha lido, nem com as descrições do traidor Eduardo, o judas. O que havia de ser feito sobre isso?
Então tive uma ideia, ia tirar o caso a limpo de uma vez por todas. Era esperar o pai voltar do trabalho e insistir na pergunta, ele devia saber. Meu pai havia de saber, adulto e vivido, ia dar alguma resposta sensata.
Sentei atrás do sofá a tarde toda, esperando papai chegar. Era sexta-feira, e sabia que era dia de ele chegar mais tarde, dia de bar com os colegas da repartição, mas eu estava determinado. Angelina, bela Angelina, me fez companhia atrás daquele sofá, o tempo todo sacudindo sua cabeça e fugindo de mim. Angelina e o amor, eu tinha que saber, foi um alívio quando meu pai entrou pela porta e tirou a gravata e eu pude finalmente deixar meu esconderijo. Esperei pacientemente ele terminar o jornal, jantamos todos, ele, mamãe e eu, ele sentou na poltrona verde e ficou olhando para um cinzeiro velho na mesa, a tevê ligada baixinho.
Sentei ao lado dele, em um banquinho acolchoado marrom, e olhei para o rosto dele. Era um homem vivido, ocupado. Trabalhava sempre e muito, devia ser algo importante, porque ele usava terno, gravata e tudo. Não havia dúvida para a qual aquele homem não soubesse a resposta. Então, sentado ao seu lado, expliquei a situação. Os olhos dele passeavam pela sala sem nunca passar por mim, parecendo às vezes rodar, às vezes parar em algum ponto indefinido da sala, como se ele estivesse longe, olhando pra dentro.
Ele ouviu e ouviu a história, falei sobre Angelina, como ela crescia, a linda Angelina, falei sobre o traidor Elias e sobre o judas Eduardo, sobre as histórias do irmão dele, sobre as gargalhadas e sobre o amor. E então eu perguntei pro meu pai, sábio e velho pai, curtido pela idade, perguntei o que é que havia de se fazer nesse caso, no caso do amor ter acontecido e fugido porta afora, um dilema dessa envergadura. Ele olhava a sala curiosamente, como se fosse nova, imagino que estivesse pensando, ruminando uma ideia. E ele respondeu, após uma longa e silenciosa pausa reflexiva: É, meu filho, parar de fumar é o diabo, é verdade. É o diabo.
E foi assim que eu descobri o que era amor.
Amor era isso? Não podia me conformar. Certamente não se parecia com o que eu tinha lido, nem com as descrições do traidor Eduardo, o judas. O que havia de ser feito sobre isso?
Então tive uma ideia, ia tirar o caso a limpo de uma vez por todas. Era esperar o pai voltar do trabalho e insistir na pergunta, ele devia saber. Meu pai havia de saber, adulto e vivido, ia dar alguma resposta sensata.
Sentei atrás do sofá a tarde toda, esperando papai chegar. Era sexta-feira, e sabia que era dia de ele chegar mais tarde, dia de bar com os colegas da repartição, mas eu estava determinado. Angelina, bela Angelina, me fez companhia atrás daquele sofá, o tempo todo sacudindo sua cabeça e fugindo de mim. Angelina e o amor, eu tinha que saber, foi um alívio quando meu pai entrou pela porta e tirou a gravata e eu pude finalmente deixar meu esconderijo. Esperei pacientemente ele terminar o jornal, jantamos todos, ele, mamãe e eu, ele sentou na poltrona verde e ficou olhando para um cinzeiro velho na mesa, a tevê ligada baixinho.
Sentei ao lado dele, em um banquinho acolchoado marrom, e olhei para o rosto dele. Era um homem vivido, ocupado. Trabalhava sempre e muito, devia ser algo importante, porque ele usava terno, gravata e tudo. Não havia dúvida para a qual aquele homem não soubesse a resposta. Então, sentado ao seu lado, expliquei a situação. Os olhos dele passeavam pela sala sem nunca passar por mim, parecendo às vezes rodar, às vezes parar em algum ponto indefinido da sala, como se ele estivesse longe, olhando pra dentro.
Ele ouviu e ouviu a história, falei sobre Angelina, como ela crescia, a linda Angelina, falei sobre o traidor Elias e sobre o judas Eduardo, sobre as histórias do irmão dele, sobre as gargalhadas e sobre o amor. E então eu perguntei pro meu pai, sábio e velho pai, curtido pela idade, perguntei o que é que havia de se fazer nesse caso, no caso do amor ter acontecido e fugido porta afora, um dilema dessa envergadura. Ele olhava a sala curiosamente, como se fosse nova, imagino que estivesse pensando, ruminando uma ideia. E ele respondeu, após uma longa e silenciosa pausa reflexiva: É, meu filho, parar de fumar é o diabo, é verdade. É o diabo.
E foi assim que eu descobri o que era amor.
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Contos
sábado, 22 de agosto de 2009
angelina e o amor - parte 2
Quando contei isso pra turma, depois do futebol, Elias me explicou que podia ser que fosse amor. Tinha que ser, disse Eduardo, mais velho um ano, repetente. O irmão dele tinha uma namorada e passava horas por dia com ela no telefone, e o Eduardo disse que ele não pensava em outra coisa. Achei estranho, amor. Já tinha ouvido falar, até já tinha lido alguns versos de amor algumas vezes na aula de literatura, mas me parecia uma coisa diferente.
Voltei pra casa um tanto confuso, minha cabeça ocupada entre pensamentos, preso entre amor e Angelina me olhando, eu estava determinado a passar a limpo. Ia falar com meu pai, já adulto e conhecedor das coisas, funcionário público e tudo. Esperei ele chegar do trabalho, ler o jornal e, depois do jantar, tentei introduzir a pergunta, mas não tive ocasião. Muito agitado, ele andava para os lados e falava alto, às vezes sozinho, às vezes com mamãe, que respondia da cozinha. Concluí que não era um bom momento e nos dias seguintes acabei até esquecendo de perguntar.
Não via jeito de resolver aquela questão, até que Elias me veio com uma resposta bastante sensata. Convida ela pro baile, se ela aceitar é porque te ama também, ele disse. Achei razoável, embora não fizesse ideia do que deveria fazer caso ela me amasse. O que vinha depois ninguém soube me responder, mas antes me cabia resolver a primeira questão. Era simples, só tinha que convidar Angelina para o baile.
Naquele dia, no fim da última aula, cocei a cabeça, ali no fundo da classe, pensando no que ia dizer. Já tinha até sido um pão, mas aquilo fazia pouca diferença naquele momento. Não conseguia decidir, e senti um certo receio. Olhava lá do fundo e pensava, pensava, e não me vinha nada; de repente não me pareceu mais tão simples assim. Melhor seria escrever, mas não havia mais tempo. Tomei a decisão.
Levantei da carteira e fui caminhando na direção da primeira fila, mas no caminho algo estranho começou a acontecer. Eu fui sentindo um calor, minhas orelhas queimavam mais que em dia de exame, minhas mãos suavam. E a estranheza toda aumentou, porque sucedia que, quanto mais me aproximava de Angelina, maior ela ficava, ela ia crescendo e crescendo, e eu seguia diminuindo e diminuindo até que quando parei do lado dela ela me parecia três vezes o meu tamanho. Tinha ficado bonita, muito bonita, cheirava a rosas, e os olhos brilhavam.
Quase desisti, mas já tinha ido até ali e achei um desperdício voltar atrás. Quando eu cutuquei seu ombro, pareceu-me que o tempo ficou devagar e que o ar tinha virado um tipo de água morna, resistindo a meus movimentos e deixando tudo em câmera lenta. Ela virou, sorrindo, e o tempo de novo pregou-me uma peça, o maldito parou e eu não conseguia abrir a boca, fiquei ali parado por horas, pequeno e de boca aberta, sem dizer palavra.
As amigas não ajudavam, olhando para mim e comentando, elas comentavam tudo, abafavam risadinhas e apontavam discretamente, e logo quase toda a classe observava a minha miséria. Angelina parecia impaciente, me olhava como se perguntasse o que eu queria. O calor aumentou, abri a boca e a voz não saiu, eu via todos ali me olhando e Angelina, enorme e deslumbrante Angelina postada à minha frente, querendo saber o que eu tinha a dizer, o zumbido esmagador e o ar que me faltava, o ar que tinha virado água morna, um pão, lembrei do consultório do dentista, aquela aflição, o doutor abrindo minha boca e o zumbido do aparelhinho, a angústia do ferro pegando nos dentes, puxando e puxando, todo mundo me olhando e por fim eu disse, Angelina, acho que eu te amo.
Então tudo ficou em silêncio.
Em poucos segundos que para mim foram dias ali parado, suando nas mãos, o som ia voltando. Começou baixo, uma risada aqui, outra ali, e foi aumentando, aumentando, e logo a sala toda gargalhava como se fosse circo, eu no picadeiro, parado, Elias e Eduardo, o repetente, riam de perder o fôlego, os traidores, e Angelina, a imensa Angelina, avermelhou-se e sacudiu a cabeça, envergonhada, recolheu os livros e saiu pela porta com a sua beleza toda, me deixando ali sem resposta alguma, só a carteira vazia, mergulhado nas gargalhadas.
(continua)
Voltei pra casa um tanto confuso, minha cabeça ocupada entre pensamentos, preso entre amor e Angelina me olhando, eu estava determinado a passar a limpo. Ia falar com meu pai, já adulto e conhecedor das coisas, funcionário público e tudo. Esperei ele chegar do trabalho, ler o jornal e, depois do jantar, tentei introduzir a pergunta, mas não tive ocasião. Muito agitado, ele andava para os lados e falava alto, às vezes sozinho, às vezes com mamãe, que respondia da cozinha. Concluí que não era um bom momento e nos dias seguintes acabei até esquecendo de perguntar.
Não via jeito de resolver aquela questão, até que Elias me veio com uma resposta bastante sensata. Convida ela pro baile, se ela aceitar é porque te ama também, ele disse. Achei razoável, embora não fizesse ideia do que deveria fazer caso ela me amasse. O que vinha depois ninguém soube me responder, mas antes me cabia resolver a primeira questão. Era simples, só tinha que convidar Angelina para o baile.
Naquele dia, no fim da última aula, cocei a cabeça, ali no fundo da classe, pensando no que ia dizer. Já tinha até sido um pão, mas aquilo fazia pouca diferença naquele momento. Não conseguia decidir, e senti um certo receio. Olhava lá do fundo e pensava, pensava, e não me vinha nada; de repente não me pareceu mais tão simples assim. Melhor seria escrever, mas não havia mais tempo. Tomei a decisão.
Levantei da carteira e fui caminhando na direção da primeira fila, mas no caminho algo estranho começou a acontecer. Eu fui sentindo um calor, minhas orelhas queimavam mais que em dia de exame, minhas mãos suavam. E a estranheza toda aumentou, porque sucedia que, quanto mais me aproximava de Angelina, maior ela ficava, ela ia crescendo e crescendo, e eu seguia diminuindo e diminuindo até que quando parei do lado dela ela me parecia três vezes o meu tamanho. Tinha ficado bonita, muito bonita, cheirava a rosas, e os olhos brilhavam.
Quase desisti, mas já tinha ido até ali e achei um desperdício voltar atrás. Quando eu cutuquei seu ombro, pareceu-me que o tempo ficou devagar e que o ar tinha virado um tipo de água morna, resistindo a meus movimentos e deixando tudo em câmera lenta. Ela virou, sorrindo, e o tempo de novo pregou-me uma peça, o maldito parou e eu não conseguia abrir a boca, fiquei ali parado por horas, pequeno e de boca aberta, sem dizer palavra.
As amigas não ajudavam, olhando para mim e comentando, elas comentavam tudo, abafavam risadinhas e apontavam discretamente, e logo quase toda a classe observava a minha miséria. Angelina parecia impaciente, me olhava como se perguntasse o que eu queria. O calor aumentou, abri a boca e a voz não saiu, eu via todos ali me olhando e Angelina, enorme e deslumbrante Angelina postada à minha frente, querendo saber o que eu tinha a dizer, o zumbido esmagador e o ar que me faltava, o ar que tinha virado água morna, um pão, lembrei do consultório do dentista, aquela aflição, o doutor abrindo minha boca e o zumbido do aparelhinho, a angústia do ferro pegando nos dentes, puxando e puxando, todo mundo me olhando e por fim eu disse, Angelina, acho que eu te amo.
Então tudo ficou em silêncio.
Em poucos segundos que para mim foram dias ali parado, suando nas mãos, o som ia voltando. Começou baixo, uma risada aqui, outra ali, e foi aumentando, aumentando, e logo a sala toda gargalhava como se fosse circo, eu no picadeiro, parado, Elias e Eduardo, o repetente, riam de perder o fôlego, os traidores, e Angelina, a imensa Angelina, avermelhou-se e sacudiu a cabeça, envergonhada, recolheu os livros e saiu pela porta com a sua beleza toda, me deixando ali sem resposta alguma, só a carteira vazia, mergulhado nas gargalhadas.
(continua)
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Contos
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
angelina e o amor - parte 1
Angelina e o amor
Era fevereiro quando começou, mas não fazia aquele calor que faz a gente ficar melado o tempo todo de suor como parece que acontece todo fevereiro; pelo menos nos últimos foi assim. Acho que eu tinha treze anos, e ainda não me tinham explicado muita coisa. Pode ser que tivesse catorze, mas não tenho certeza.
Logo no começo das aulas, naquele ano, Angelina me passou um recado na sala dizendo que me achava um pão, e as amigas dela davam risadinhas bobas olhando para trás. Eu me sentava no fundo da sala, ela sempre foi aluna de primeira fila. Estudávamos juntos desde sempre, escola pequena, e mesmo assim dela eu não sabia nada senão o nome. Nunca tinha me aventurado a reparar tão longe antes, daí minha surpresa quando recebi o recadinho.
Perguntei aos meus amigos o que é que ela quis dizer com aquilo. Um pão, eles me explicaram. Fiquei assombrado na hora, mas pouco tempo levou pra me acostumar com a idéia. Eu era um pão e aquilo me bastava.
Levou um tempo ainda para que eu entendesse a dimensão daquele bilhetinho. Comecei a reparar, trocar olhares. Ela me parecia um pouco estranha, sempre curvada, beirando o corcunda, e tinha as pernas finas. Duas pontas brotavam na blusa dela, tentando furar o tecido da roupa, fazendo volume. Usava sempre uma trança longa que não deixava ver se tinha cabelos lisos ou cacheados, de tão repuxada que era, e era quase loura, quase morena, nem um nem outro. Tinha braços compridos que sempre seguravam alguma coisa contra o peito. Não sabia dizer se era bonita; talvez não fosse.
Acontecia que eu não sabia direito como deveria agir. O que é que vinha depois? Entre responder o bilhete e dar flores, achei apropriado começar por cumprimentá-la na entrada da escola, um oi, tudo bem?. Desisti logo depois da primeira tentativa. Ela avermelhou-se de um tanto e, arisca, escapou escada acima. Eu fiquei ali, tentando compreender o que é que tinha acontecido.
Passou uma semana sem se virar para trás. Eu não entendia o comportamento dela, me parecia uma coisa sem sentido algum. Pensei muito nisso, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Ela e as amigas passavam, todas as meninas olhavam e soltavam risadinhas abafadas, mas ela nada, seguia reto, deixando vento. Considerei que havia perdido minha recente promoção a pão, e deixei estar.
Mas alguma coisa tinha começado a me incomodar, e eu não sabia bem o que era. Não me agradou o fato de ter perdido minha posição, mesmo que eu não soubesse nem por que isso tinha acontecido em primeiro lugar, e então comecei a sentir a presença dela nos lugares mais inconvenientes.
No começo era pouco, via o rosto dela me olhando de soslaio na hora de dormir e antes de almoçar. Não demorou e logo ela aparecia em lugares e momentos aleatórios sem que eu tivesse o menor controle e por lá ficava, gravada na minha mente, sempre me olhando de lado, saia rodada e blusa de renda. No banho, no futebol, no meio da aula de inglês, no supermercado e no almoço na casa da minha avó, todo domingo, até na igreja ela me apareceu um dia.
(continua)
Era fevereiro quando começou, mas não fazia aquele calor que faz a gente ficar melado o tempo todo de suor como parece que acontece todo fevereiro; pelo menos nos últimos foi assim. Acho que eu tinha treze anos, e ainda não me tinham explicado muita coisa. Pode ser que tivesse catorze, mas não tenho certeza.
Logo no começo das aulas, naquele ano, Angelina me passou um recado na sala dizendo que me achava um pão, e as amigas dela davam risadinhas bobas olhando para trás. Eu me sentava no fundo da sala, ela sempre foi aluna de primeira fila. Estudávamos juntos desde sempre, escola pequena, e mesmo assim dela eu não sabia nada senão o nome. Nunca tinha me aventurado a reparar tão longe antes, daí minha surpresa quando recebi o recadinho.
Perguntei aos meus amigos o que é que ela quis dizer com aquilo. Um pão, eles me explicaram. Fiquei assombrado na hora, mas pouco tempo levou pra me acostumar com a idéia. Eu era um pão e aquilo me bastava.
Levou um tempo ainda para que eu entendesse a dimensão daquele bilhetinho. Comecei a reparar, trocar olhares. Ela me parecia um pouco estranha, sempre curvada, beirando o corcunda, e tinha as pernas finas. Duas pontas brotavam na blusa dela, tentando furar o tecido da roupa, fazendo volume. Usava sempre uma trança longa que não deixava ver se tinha cabelos lisos ou cacheados, de tão repuxada que era, e era quase loura, quase morena, nem um nem outro. Tinha braços compridos que sempre seguravam alguma coisa contra o peito. Não sabia dizer se era bonita; talvez não fosse.
Acontecia que eu não sabia direito como deveria agir. O que é que vinha depois? Entre responder o bilhete e dar flores, achei apropriado começar por cumprimentá-la na entrada da escola, um oi, tudo bem?. Desisti logo depois da primeira tentativa. Ela avermelhou-se de um tanto e, arisca, escapou escada acima. Eu fiquei ali, tentando compreender o que é que tinha acontecido.
Passou uma semana sem se virar para trás. Eu não entendia o comportamento dela, me parecia uma coisa sem sentido algum. Pensei muito nisso, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Ela e as amigas passavam, todas as meninas olhavam e soltavam risadinhas abafadas, mas ela nada, seguia reto, deixando vento. Considerei que havia perdido minha recente promoção a pão, e deixei estar.
Mas alguma coisa tinha começado a me incomodar, e eu não sabia bem o que era. Não me agradou o fato de ter perdido minha posição, mesmo que eu não soubesse nem por que isso tinha acontecido em primeiro lugar, e então comecei a sentir a presença dela nos lugares mais inconvenientes.
No começo era pouco, via o rosto dela me olhando de soslaio na hora de dormir e antes de almoçar. Não demorou e logo ela aparecia em lugares e momentos aleatórios sem que eu tivesse o menor controle e por lá ficava, gravada na minha mente, sempre me olhando de lado, saia rodada e blusa de renda. No banho, no futebol, no meio da aula de inglês, no supermercado e no almoço na casa da minha avó, todo domingo, até na igreja ela me apareceu um dia.
(continua)
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
alpargatas - parte 7 (final)
Oi, ele disse, o sorriso cínico debaixo da barba rala. Eu era uma borboleta daquelas bem coloridas, no meio de um furacão, bem no olho dele. Tudo calmo e tranquilo onde eu estava, mas para qualquer lado que eu olhasse via só outra maneira de me perder.
Mandei um beijo para a minha mãe e terminei a conversa inventada, tentando manter uma expressão indiferente. Oi. A Bi não sabia o que fazer. Disse para ela ir que eu já a encontraria na Guanabara. Ao inferno com a moderação.
E aí, como você anda?, ele perguntou, Li sua resenha no jornal dessa semana, muito boa. Ele estava sendo charmoso daquele jeito dele, mas não ia funcionar, não dessa vez. Tou bem, obrigada, respondi, bom que gostou da resenha. Não que ele se importasse, não de verdade.
E o que você anda fazendo? Quer dizer, além de trabalhar? Terminou o mestrado?
Terminei, menti. Afinal, que diferença faria? Ele nunca iria saber. Era só ele tentando inventar um assunto que não existia. Não tinha mais nada em comum entre nós, pensei, os silêncios eram constrangedores, eu não sabia mais o que dizer. Não tinha mais nada a ver. Velhas novidades, quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas. E ainda assim...
Ele percebeu. Eu sabia disso porque vi nos olhos dele, no jeito dele de sorrir de lado. Percebeu tudo ali naquele instante, percebeu a máscara que eu usava e eu sabia o que viria, sabia e era inevitável como morrer é inevitável e como foi inevitável o embrulho que deu no meu estômago.
Tentei te ligar, sabe, depois. Mas você nunca atendeu, não deix-
Pára. Nem começa, cortei. Eu tremia de leve e virei a cabeça de lado, podia sentir tudo vindo, começando a voltar. Ele sorria e me olhava complacente, e eu fiquei irritada, senti raiva, e senti mais raiva ainda quando percebi que a raiva nem era dele, era raiva de mim, de não ter esquecido e de deixar tudo aquilo voltar e de não conseguir nem disfarçar que eu estava tremendo. Por que ele não parava? Por que não podia deixar tudo como estava?
Ele abaixou a cabeça e suspirou, e eu cruzei os braços, sem conseguir olhar para ele.
Olha, ele disse, eu só queria pedir desculpas, sabe, quando eu liguei.
Não faz diferença, passou, menti, e ele sabia que era a mais descarada das mentiras. A mãe de todas as mentiras. Pinocchio sentiria orgulho de mim, e eu tremia mais e sentia o peso dos anos de poeira que eu deixei juntar por cima. Doía porque eu sabia que ele estava sendo sincero. Era injusto, totalmente injusto, tinha passado tanto tempo! Não era a mesma coisa, era um tipo de saudade doída, uma espécie de decepção que me encantava. Porque aquela saudade que eu sentia, aquela saudade eu já tinha calejado antes mesmo de senti-la, e de certa forma isso era triste. E ainda assim ele estava ali, sentado na bola de ferro e olhando para mim, e eu ali apalermada, meu rosto desmanchando e minha respiração apertando e meu coração dando um nó, não era justo.
Eu sabia que não tinha acabado, não ainda. E veio quando eu pensava que seria uma boa idéia se chovesse de novo, se eu tivesse uma boa desculpa para correr e me abrigar da água debaixo de uma marquise qualquer, com a Bianca, me abrigar de engolir todos os cacos do que tinha sido, e pior, sempre pior, os cacos do que nem tinha chegado a ser, meus cacos.
Ele me olhou e eu vi que seus olhos brilhavam, molhados, como os de uma criança, e a voz dele saiu como se viesse se de um tipo de sonho, nem parecia dele, sem afetação nenhuma, sem aquela segurança adolescente que ele sempre projetava, só isso, vacilante e sincera, dolorosamente sincera, Senti tua falta, sabe? Esse tempo todo, senti tua falta...
E eu senti o gosto salgado e morno na ponta da minha língua, porque então já não tinha máscara nenhuma, lágrimas colavam meus cabelos no meu rosto e eu tremia às sacudidas, quando percebi que eram na verdade soluços, cabelos, lágrimas, lembranças e o rosto dele me olhando, sentado ali naquele imenso ovo de ferro enquanto os carros passavam e algumas pessoas passavam e um vento de chuva soprava no leblon, tudo se misturando dentro de mim, e tudo foi meio que desaparecendo e perdendo a importância magnânima da perspectiva, e eu lembro que só o que eu queria era pedir de volta as minhas alpargatas, beges e bregas e gastas, esquecidas em algum canto daquele apartamento onde ele tinha me prometido um monte de coisas sem dizer uma palavra, e onde, também em silêncio, ele tinha quebrado essas mesmas promessas.
Mandei um beijo para a minha mãe e terminei a conversa inventada, tentando manter uma expressão indiferente. Oi. A Bi não sabia o que fazer. Disse para ela ir que eu já a encontraria na Guanabara. Ao inferno com a moderação.
E aí, como você anda?, ele perguntou, Li sua resenha no jornal dessa semana, muito boa. Ele estava sendo charmoso daquele jeito dele, mas não ia funcionar, não dessa vez. Tou bem, obrigada, respondi, bom que gostou da resenha. Não que ele se importasse, não de verdade.
E o que você anda fazendo? Quer dizer, além de trabalhar? Terminou o mestrado?
Terminei, menti. Afinal, que diferença faria? Ele nunca iria saber. Era só ele tentando inventar um assunto que não existia. Não tinha mais nada em comum entre nós, pensei, os silêncios eram constrangedores, eu não sabia mais o que dizer. Não tinha mais nada a ver. Velhas novidades, quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas. E ainda assim...
Ele percebeu. Eu sabia disso porque vi nos olhos dele, no jeito dele de sorrir de lado. Percebeu tudo ali naquele instante, percebeu a máscara que eu usava e eu sabia o que viria, sabia e era inevitável como morrer é inevitável e como foi inevitável o embrulho que deu no meu estômago.
Tentei te ligar, sabe, depois. Mas você nunca atendeu, não deix-
Pára. Nem começa, cortei. Eu tremia de leve e virei a cabeça de lado, podia sentir tudo vindo, começando a voltar. Ele sorria e me olhava complacente, e eu fiquei irritada, senti raiva, e senti mais raiva ainda quando percebi que a raiva nem era dele, era raiva de mim, de não ter esquecido e de deixar tudo aquilo voltar e de não conseguir nem disfarçar que eu estava tremendo. Por que ele não parava? Por que não podia deixar tudo como estava?
Ele abaixou a cabeça e suspirou, e eu cruzei os braços, sem conseguir olhar para ele.
Olha, ele disse, eu só queria pedir desculpas, sabe, quando eu liguei.
Não faz diferença, passou, menti, e ele sabia que era a mais descarada das mentiras. A mãe de todas as mentiras. Pinocchio sentiria orgulho de mim, e eu tremia mais e sentia o peso dos anos de poeira que eu deixei juntar por cima. Doía porque eu sabia que ele estava sendo sincero. Era injusto, totalmente injusto, tinha passado tanto tempo! Não era a mesma coisa, era um tipo de saudade doída, uma espécie de decepção que me encantava. Porque aquela saudade que eu sentia, aquela saudade eu já tinha calejado antes mesmo de senti-la, e de certa forma isso era triste. E ainda assim ele estava ali, sentado na bola de ferro e olhando para mim, e eu ali apalermada, meu rosto desmanchando e minha respiração apertando e meu coração dando um nó, não era justo.
Eu sabia que não tinha acabado, não ainda. E veio quando eu pensava que seria uma boa idéia se chovesse de novo, se eu tivesse uma boa desculpa para correr e me abrigar da água debaixo de uma marquise qualquer, com a Bianca, me abrigar de engolir todos os cacos do que tinha sido, e pior, sempre pior, os cacos do que nem tinha chegado a ser, meus cacos.
Ele me olhou e eu vi que seus olhos brilhavam, molhados, como os de uma criança, e a voz dele saiu como se viesse se de um tipo de sonho, nem parecia dele, sem afetação nenhuma, sem aquela segurança adolescente que ele sempre projetava, só isso, vacilante e sincera, dolorosamente sincera, Senti tua falta, sabe? Esse tempo todo, senti tua falta...
E eu senti o gosto salgado e morno na ponta da minha língua, porque então já não tinha máscara nenhuma, lágrimas colavam meus cabelos no meu rosto e eu tremia às sacudidas, quando percebi que eram na verdade soluços, cabelos, lágrimas, lembranças e o rosto dele me olhando, sentado ali naquele imenso ovo de ferro enquanto os carros passavam e algumas pessoas passavam e um vento de chuva soprava no leblon, tudo se misturando dentro de mim, e tudo foi meio que desaparecendo e perdendo a importância magnânima da perspectiva, e eu lembro que só o que eu queria era pedir de volta as minhas alpargatas, beges e bregas e gastas, esquecidas em algum canto daquele apartamento onde ele tinha me prometido um monte de coisas sem dizer uma palavra, e onde, também em silêncio, ele tinha quebrado essas mesmas promessas.
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terça-feira, 21 de julho de 2009
alpargatas - parte 6
À noite tudo é possível. Quer dizer, parece que você pode ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa, só que sempre amanhã. Tudo é possível, mas ligeiramente fora do alcance. Apesar de ser uma idéia ridícula, sem nenhum sentido, ainda assim a sensação é boa, como um copo de absinto que você sabe que é falso, mas ainda assim deixa uma sombra de fada verde circulando ao redor da sua cabeça.
Na verdade é como usar uma bengala para tentar substituir uma perna, uma grande e inútil mentira. E é uma faca de dois gumes, essa mentira, essa esperança, porque se à noite tudo parece possível, nada mais natural do que a possibilidade de uma boa e sólida merda, e assim toda aquela sensação boa e a fada verde e tudo o mais não passa de uma cortina que cobre um palco. E que pode cobrir uma estrela tão bem quanto pode esconder a pior platéia do mundo.
Mas naquela hora a única coisa que me impedia de alcançar o tudo que eu achava que era possível era um buraco vazio no meu estômago, e o lanchinho poderia iluminar a humanidade, e talvez a noite.
A Bianca caminhava um pouco à frente, tropeçando, virando o pescoço para falar comigo e tentando salvaguardar um pouco de dignidade, e eu, atrás, ditava o caminho até o último reduto da gastronomia noturna do leblon. Eu não conseguia decidir se era melhor manter o regime comendo um naturebazinho básico no Bibi ou se chutava o balde e encarava uma pizza na Guanabara. Enquanto pensava, e assim de supetão, a Bianca parou e virou o rosto, pálida, eu não entendi nada, e ela até tentou me parar e inventar uma desculpa para desviar, mas já era tarde.
Não. Não podia ser. Eu não o vi. Alguém me diz que eu não o vi. Mas era noite e tudo era possível, ou pelo menos parecia, e enquanto eu nem tinha tempo para pensar na ironia que é brincar de otimismo quando tudo parece possível, eu já o tinha visto e era tarde demais.
Ele estava sentado em uma daquelas bolas de ferro que ficam espalhadas pelas esquinas do leblon, parecia uma galinha chocando um ovo, uma galinha sem penas e com barba por fazer chocando um imenso ovo de ferro numa esquina do leblon, a mesma cara cínica que eu tinha aprendido a esquecer depois de tanto tempo e que eu achava que tinha certeza que não ia mais me atingir.
Olhei para a Bianca que me olhava de volta, com cara de aflição, como antes, como quando ela tinha me visto em pedaços na porta da casa dela depois de tudo, sem saber o que fazer enquanto eu soluçava, e então decidi engolir tudo. Não dava para viver assim, com essa sombra, e não era certo eu desviar do caminho para não ter que encarar o que nem mais deveria existir. Continuei a andar, e a Bi arregalou os olhos como quem pergunta Tem certeza?, e porra, claro que eu não tinha, mas me pareceu que o melhor era fingir que tinha.
Acho que ele ainda não tinha me visto. Na verdade era o que eu dizia para mim mesma, esquizofrênica, mas sabia que já tinha visto. Tentei parecer segura, caminhando em silêncio, a Bi do meu lado, então faltou coragem e eu não quis encarar, mas já era tarde para voltar e a única coisa em que eu consegui pensar foi no meu celular, isso, eu atendi uma ligação imaginária da minha mãe, e a Bianca deve ter achado que eu era louca, porque a conversa fluía, eu tinha uma resposta para cada pergunta dela que eu inventava e dei até risada, não se preocupa mãe, tou com a Bi, a gente só tá indo comer, não, vou dormir em casa, tudo bem, pego um táxi, e por aí foi, ridículo.
Achei que assim ele não teria coragem de vir falar comigo, eu estava no telefone e não tinha nem reparado que era ele ali sentado. Eu estava falando no telefone. Era o que eu esperava, mas eu sabia que não ia ser assim tão simples, nunca é, o prego sempre dói mais para sair do que para entrar.
Na verdade é como usar uma bengala para tentar substituir uma perna, uma grande e inútil mentira. E é uma faca de dois gumes, essa mentira, essa esperança, porque se à noite tudo parece possível, nada mais natural do que a possibilidade de uma boa e sólida merda, e assim toda aquela sensação boa e a fada verde e tudo o mais não passa de uma cortina que cobre um palco. E que pode cobrir uma estrela tão bem quanto pode esconder a pior platéia do mundo.
Mas naquela hora a única coisa que me impedia de alcançar o tudo que eu achava que era possível era um buraco vazio no meu estômago, e o lanchinho poderia iluminar a humanidade, e talvez a noite.
A Bianca caminhava um pouco à frente, tropeçando, virando o pescoço para falar comigo e tentando salvaguardar um pouco de dignidade, e eu, atrás, ditava o caminho até o último reduto da gastronomia noturna do leblon. Eu não conseguia decidir se era melhor manter o regime comendo um naturebazinho básico no Bibi ou se chutava o balde e encarava uma pizza na Guanabara. Enquanto pensava, e assim de supetão, a Bianca parou e virou o rosto, pálida, eu não entendi nada, e ela até tentou me parar e inventar uma desculpa para desviar, mas já era tarde.
Não. Não podia ser. Eu não o vi. Alguém me diz que eu não o vi. Mas era noite e tudo era possível, ou pelo menos parecia, e enquanto eu nem tinha tempo para pensar na ironia que é brincar de otimismo quando tudo parece possível, eu já o tinha visto e era tarde demais.
Ele estava sentado em uma daquelas bolas de ferro que ficam espalhadas pelas esquinas do leblon, parecia uma galinha chocando um ovo, uma galinha sem penas e com barba por fazer chocando um imenso ovo de ferro numa esquina do leblon, a mesma cara cínica que eu tinha aprendido a esquecer depois de tanto tempo e que eu achava que tinha certeza que não ia mais me atingir.
Olhei para a Bianca que me olhava de volta, com cara de aflição, como antes, como quando ela tinha me visto em pedaços na porta da casa dela depois de tudo, sem saber o que fazer enquanto eu soluçava, e então decidi engolir tudo. Não dava para viver assim, com essa sombra, e não era certo eu desviar do caminho para não ter que encarar o que nem mais deveria existir. Continuei a andar, e a Bi arregalou os olhos como quem pergunta Tem certeza?, e porra, claro que eu não tinha, mas me pareceu que o melhor era fingir que tinha.
Acho que ele ainda não tinha me visto. Na verdade era o que eu dizia para mim mesma, esquizofrênica, mas sabia que já tinha visto. Tentei parecer segura, caminhando em silêncio, a Bi do meu lado, então faltou coragem e eu não quis encarar, mas já era tarde para voltar e a única coisa em que eu consegui pensar foi no meu celular, isso, eu atendi uma ligação imaginária da minha mãe, e a Bianca deve ter achado que eu era louca, porque a conversa fluía, eu tinha uma resposta para cada pergunta dela que eu inventava e dei até risada, não se preocupa mãe, tou com a Bi, a gente só tá indo comer, não, vou dormir em casa, tudo bem, pego um táxi, e por aí foi, ridículo.
Achei que assim ele não teria coragem de vir falar comigo, eu estava no telefone e não tinha nem reparado que era ele ali sentado. Eu estava falando no telefone. Era o que eu esperava, mas eu sabia que não ia ser assim tão simples, nunca é, o prego sempre dói mais para sair do que para entrar.
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quarta-feira, 10 de junho de 2009
alpargatas - parte 5
E confesso que me diverti. Apesar dos pisões e empurrões, do calor infernal e da fila gigantesca do banheiro, apesar da quase impossibilidade de chegar até o bar e das apalpadas que vinham, sorrateiras e inexoráveis, com o trajeto. Tenho que confessar que foi bom. Acho que porque eu não esperava nada, ou porque esperava o pior. A música não dava tempo e nem condições para uma conversa aprofundada, era tudo simples, apesar da confusão, um tipo de redenção pela leveza.
Ali fui observada, empurrada, invejada, adorada, apalpada e abordada mais de uma vez. Era até engraçado observar a insistência de alguns, e admito que até senti um certo prazer nisso. Sadismo, ok, mas tecnicamente eu não estava pisando em ninguém. Era uma negociação, pura e simplesmente. Eles me ofereciam um produto, eu não estava interessada. Alguns insistiam, tentavam me pagar uma bebida, uma vez até aceitei. Mas disse não.
A Bianca, por outro lado, instigava ostensivamente o assédio. Linda e loura, ela sabia como se mexer. Enquanto eu lutava para tirar a ferrugem dos meus ossos e esboçar movimentos que lembravam de longe uma dança, ela brilhava com uma sensualidade natural e inocente que envolvia todos os homens ao redor. Não era vulgar, longe disso. Era só ela, e tão ela, que não dava pra não olhar.
Acho que a Bi ficou com uns cinco ou seis durante o tempo que estivemos lá. Talvez mais, não tenho certeza. Mas pelo menos cinco.
Nós estávamos um pouco cozidas, bebinhas, na verdade. Rindo à toa. Depois de um último drink, que acabei derramando todo na minha roupa, decidimos que já era hora de partir. Melhor sair antes da fila aumentar. Além disso, já estávamos meio cansadas.
Eu paguei antes, e enquanto esperava a Bianca pagar, peguei a bolsa dela e mandei uma mensagem pro número do guardanapo. Só escrevi "Bianca". Tudo bem, perdi um pouco a noção, mas tudo bem, estava bêbada, tinha essa desculpa. Tinha acabado de enviar a mensagem quando ela saiu. Ela até esboçou uma cara de puta, mas não conseguiu segurar o riso. Então, tropeçando e rindo dos desacatos dela, piranha, biscate, oferecida, seguimos em direção à Ataulfo para o último pit-stop da noite, um lanchinho antes de dormir.
(continua)
Ali fui observada, empurrada, invejada, adorada, apalpada e abordada mais de uma vez. Era até engraçado observar a insistência de alguns, e admito que até senti um certo prazer nisso. Sadismo, ok, mas tecnicamente eu não estava pisando em ninguém. Era uma negociação, pura e simplesmente. Eles me ofereciam um produto, eu não estava interessada. Alguns insistiam, tentavam me pagar uma bebida, uma vez até aceitei. Mas disse não.
A Bianca, por outro lado, instigava ostensivamente o assédio. Linda e loura, ela sabia como se mexer. Enquanto eu lutava para tirar a ferrugem dos meus ossos e esboçar movimentos que lembravam de longe uma dança, ela brilhava com uma sensualidade natural e inocente que envolvia todos os homens ao redor. Não era vulgar, longe disso. Era só ela, e tão ela, que não dava pra não olhar.
Acho que a Bi ficou com uns cinco ou seis durante o tempo que estivemos lá. Talvez mais, não tenho certeza. Mas pelo menos cinco.
Nós estávamos um pouco cozidas, bebinhas, na verdade. Rindo à toa. Depois de um último drink, que acabei derramando todo na minha roupa, decidimos que já era hora de partir. Melhor sair antes da fila aumentar. Além disso, já estávamos meio cansadas.
Eu paguei antes, e enquanto esperava a Bianca pagar, peguei a bolsa dela e mandei uma mensagem pro número do guardanapo. Só escrevi "Bianca". Tudo bem, perdi um pouco a noção, mas tudo bem, estava bêbada, tinha essa desculpa. Tinha acabado de enviar a mensagem quando ela saiu. Ela até esboçou uma cara de puta, mas não conseguiu segurar o riso. Então, tropeçando e rindo dos desacatos dela, piranha, biscate, oferecida, seguimos em direção à Ataulfo para o último pit-stop da noite, um lanchinho antes de dormir.
(continua)
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
alpargatas - parte 4
Quando o garçom trouxe a conta, ele também entregou para a Bianca um guardanapo rabiscado, desses de bar mesmo, de apertar baseado. Só que não era bem um rabisco. Olhando melhor eu vi que era um desenho, um retrato nosso, sentadas à mesa do Diagonal, e um númerdo de telefone embaixo. Um desenho bonito, pra dizer a verdade, feito provavelmente com caneta bic, mas muito bonito. Lindo, até, eu meio que de perfil e a Bianca com um olhar perdido, sonhador, e um sorriso de Mona Lisa. Não tinha nome nenhum, só uma letra M com um pontinho, M., e um telefone. A Bianca olhou, deu risada, falou mal, que ela não era vesga daquele jeito, disse que era brega, fez pouco. Mas sei que ela gostou. Sorrateiramente, enquanto eu passava o cartão, ela dobrou o papel com cuidado e o colocou na bolsa. Não gostou, pois sim...
Então saímos dali, a Bianca disfarçando o sorriso e passando sem olhar pros lados, fazendo tipo, e eu fui atrás pensando que talvez aquilo tudo fizesse sim um tipo de sentido. Olhando pra trás, eu vi que um carinha nos acompanhava com os olhos, sorrindo, provavelmente o tal M.. Até que era bem bonitinho.
Comentei isso com a Bianca enquanto caminhávamos para a tal boate e me arrependi antes até de ter fechado a boca. Ela ficou nas nuvens, conjecturando sobre o DNA do tal, até quase a porta da boate. O tempo todo disparando rajadas de perguntas, como ele era?, era bonito?, tinha cara de inteligente? será que tinha dinheiro?, será que..., não sei, Bianca, NÃO SEI, eu gritei. Eu me senti um pouco mal por ter feito isso. Tudo bem, talvez tenha sentido uma ponta de inveja dela, do guardanapo que ela ganhou, da atenção que ela recebeu. Depois me senti idiota por ter sentido inveja de um guardanapo, e por ter sido impaciente com ela. Afinal, era pra eu dar apoio e ela era minha amiga, não era? Pedi desculpas pra ela, e ela deu risada, me chamou de biscate e de Viúva Porcina e ficou tudo bem de novo.
E então veio a fila. Foi meio brochante chegar até ali e ver a fila dobrando a esquina. Não conseguia conceber ficar ali, na rua, esperando horas pra entrar num lugar onde eu nem queria entrar. Puta merda, Bianca!, e ela Calma que eu vou falar com o segurança, botei nossos nomes na lista, calma lá!, dito e feito. Quando eu estava quase pedindo as contas e indo embora, a Bianca me chamou ali da porta. Tudo certo, vamos entrar agora!, e eu senti um alívio estranho, olhei a cara das pessoas na fila, que me olhavam feio enquanto eu passava na frente delas, e aquilo me deu um até um calorzinho por dentro. Senti um pouco de vergonha. Mas me senti importante, não sei explicar, bobeira. Culpa dos chopes de antes, provavelmente.
Então, distribuindo cotoveladas e pisando em dezenas de pés, entramos na Melt.
(continua)
Então saímos dali, a Bianca disfarçando o sorriso e passando sem olhar pros lados, fazendo tipo, e eu fui atrás pensando que talvez aquilo tudo fizesse sim um tipo de sentido. Olhando pra trás, eu vi que um carinha nos acompanhava com os olhos, sorrindo, provavelmente o tal M.. Até que era bem bonitinho.
Comentei isso com a Bianca enquanto caminhávamos para a tal boate e me arrependi antes até de ter fechado a boca. Ela ficou nas nuvens, conjecturando sobre o DNA do tal, até quase a porta da boate. O tempo todo disparando rajadas de perguntas, como ele era?, era bonito?, tinha cara de inteligente? será que tinha dinheiro?, será que..., não sei, Bianca, NÃO SEI, eu gritei. Eu me senti um pouco mal por ter feito isso. Tudo bem, talvez tenha sentido uma ponta de inveja dela, do guardanapo que ela ganhou, da atenção que ela recebeu. Depois me senti idiota por ter sentido inveja de um guardanapo, e por ter sido impaciente com ela. Afinal, era pra eu dar apoio e ela era minha amiga, não era? Pedi desculpas pra ela, e ela deu risada, me chamou de biscate e de Viúva Porcina e ficou tudo bem de novo.
E então veio a fila. Foi meio brochante chegar até ali e ver a fila dobrando a esquina. Não conseguia conceber ficar ali, na rua, esperando horas pra entrar num lugar onde eu nem queria entrar. Puta merda, Bianca!, e ela Calma que eu vou falar com o segurança, botei nossos nomes na lista, calma lá!, dito e feito. Quando eu estava quase pedindo as contas e indo embora, a Bianca me chamou ali da porta. Tudo certo, vamos entrar agora!, e eu senti um alívio estranho, olhei a cara das pessoas na fila, que me olhavam feio enquanto eu passava na frente delas, e aquilo me deu um até um calorzinho por dentro. Senti um pouco de vergonha. Mas me senti importante, não sei explicar, bobeira. Culpa dos chopes de antes, provavelmente.
Então, distribuindo cotoveladas e pisando em dezenas de pés, entramos na Melt.
(continua)
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quinta-feira, 14 de maio de 2009
not dead (II)
Ando procrastinando esse blog porque andei montando um outro, mais profissional, um portfólio de textos jornalísticos - ou nem tanto - para possíveis empregadores. Daí passei um tempo chafurdando em backups antigos e emails jurássicos, editando velharias e classificando o pouco que achei.
Trabalho quase completo. Volto a postar aqui muito em breve.
A quem interessar, o endereço do outro blog é http://portfoliotextual.blogspot.com/
Trabalho quase completo. Volto a postar aqui muito em breve.
A quem interessar, o endereço do outro blog é http://portfoliotextual.blogspot.com/
segunda-feira, 4 de maio de 2009
not dead
Semanas turbulentas, problemas de internet, vida real e claviculóide emperrada.
Posto ainda essa semana, prometo um fechamento para as alpargatas.
Até.
Posto ainda essa semana, prometo um fechamento para as alpargatas.
Até.
domingo, 1 de março de 2009
alpargatas - parte 3
O garçom sorriu e foi em direção ao bar. Eu me sentia desconfortável, ali, mas de alguma maneira a presença da Bianca me confortava. Olhei ao redor e percebi que alguns sujeitos nos olhavam. Tentei ignorar, mas aquilo só aumentou meu desconforto, e era a velha história do açougue, da carne e - não. Eu não ia mais fazer isso, não queria mais uma noite a menos na minha vida. Lá perto do bar, vi os dois copos de chope na bandeja do garçom, vindo em nossa direção, e decidi que não ia deixar minha cabeça fazer isso comigo, ponto final, chega. Que viessem os chopes, olhei pra trás e ah!, o movimento aumentava, as risadas, chega de desculpas, Teresa, essa não era você antes, e nem vai ser mais!
E chopes vieram e desceram, como desceram bem! Fazia muito tempo que não me sentia daquele jeito, eufórica e alegre e viva, e eu ria, a Bianca ria, e a noite era a mais linda, mesmo depois de ter chovido. Os garçons não deixavam nossos copos vazios, embora eu tivesse a impressão de que ignoravam solenemente mesas onde havia uma maioria masculina. Duas mulheres solteiras, me sentia linda e era agradável ser percebida, olhada, desejada... depois de tanto tempo, de repente era um bálsamo, e não um açougue, e eu me sentia poderosa e importante ao invés de um pedaço de carne, eles me olhavam, olhavam pra mim e pra Bi, nem disfarçavam!, e o mundo desenhava um retrato bonito de novo, colorido. Viva, eu estava viva!
Confesso que estava um tanto tontinha, lá pelo terceiro ou quarto chope, e provavelmente meu julgamento estava um pouco prejudicado. Da nossa mesa, na varanda, dava pra ver quase que todas as outras do bar, mas eu estava de costas pra entrada. A Bianca estava trocando olhares com algum cara que estava atrás de mim, eu não conseguia ver direito quem era, não queria dar na cara, né?, e ela sorria aquele sorrisinho de desdém dela, que eu conheço bem...
À minha frente era só a parede e um casal sentado em uma mesa para dois, um casal que se olhava com uma espécie de raiva velada, uma burocracia misturada com indiferença mútua que me arrancou um sorriso, sem querer, até sádico. Me senti um pouco mal, mas quer saber?, o problema é deles, eu que não deixo isso acontecer nunca mais, chega, e chega de sentir pena de quem é cego demais pra enxergar o óbvio, e tem outr- lá ia eu, de novo complicando e estragando tudo. Policiamento mental, me concentrei em não me concentrar, e então que a noite devagarinho me contagiou de novo.
(continua)
E chopes vieram e desceram, como desceram bem! Fazia muito tempo que não me sentia daquele jeito, eufórica e alegre e viva, e eu ria, a Bianca ria, e a noite era a mais linda, mesmo depois de ter chovido. Os garçons não deixavam nossos copos vazios, embora eu tivesse a impressão de que ignoravam solenemente mesas onde havia uma maioria masculina. Duas mulheres solteiras, me sentia linda e era agradável ser percebida, olhada, desejada... depois de tanto tempo, de repente era um bálsamo, e não um açougue, e eu me sentia poderosa e importante ao invés de um pedaço de carne, eles me olhavam, olhavam pra mim e pra Bi, nem disfarçavam!, e o mundo desenhava um retrato bonito de novo, colorido. Viva, eu estava viva!
Confesso que estava um tanto tontinha, lá pelo terceiro ou quarto chope, e provavelmente meu julgamento estava um pouco prejudicado. Da nossa mesa, na varanda, dava pra ver quase que todas as outras do bar, mas eu estava de costas pra entrada. A Bianca estava trocando olhares com algum cara que estava atrás de mim, eu não conseguia ver direito quem era, não queria dar na cara, né?, e ela sorria aquele sorrisinho de desdém dela, que eu conheço bem...
À minha frente era só a parede e um casal sentado em uma mesa para dois, um casal que se olhava com uma espécie de raiva velada, uma burocracia misturada com indiferença mútua que me arrancou um sorriso, sem querer, até sádico. Me senti um pouco mal, mas quer saber?, o problema é deles, eu que não deixo isso acontecer nunca mais, chega, e chega de sentir pena de quem é cego demais pra enxergar o óbvio, e tem outr- lá ia eu, de novo complicando e estragando tudo. Policiamento mental, me concentrei em não me concentrar, e então que a noite devagarinho me contagiou de novo.
(continua)
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